Memórias de um longiquistanês

26 05 2009

Ligo a TV: pessoas protestam no Livrequistão. Bombas de efeito moral, tumulto, correria… Outra manifestação: dessa vez no Bombaquistão. Mortos! O âncora chama a atenção para a depredação e passa para a próxima manchete. Não menciona o que tirou de casa o jovem de blusa vermelha; não diz o que motivou o uso da pólvora; não fala sobre o movimento… Segue para o momento educativo: cinco minutos de benefícios do protetor solar… Não, alguém morreu no Bombaquistão! Não foi de câncer de pele!

Propaganda… Tento imaginar, no intervalo, o impacto de pessoas aglomeradas nas ruas – unidas em torno de uma causa. Mas qual? O que os ameaçam? Por que elas lutam? Por que resistem? O âncora volta – mas não retorna com mais notícias dos protestos. Lembro dos ativistas bombaquistaneses, com cartazes em livrequistanês! Eles falam para o mundo! Mas não adianta mudar de canal na minha TV! Meus conterrâneos estão ocupados com outra coisa! Perdi a notícia. O vizinho tenta, em vão, me convencer, dizendo que são todos baderneiros: “uma minoria, à toa, que gosta de atrapalhar o fluxo… Tem é que descer o cacete!”.

Ainda bem que criaram a internet.

André Paravizo





No sétimo dia

24 05 2009

Na sexta passada ela bateu na minha porta com sete malas, olhos inchados e olheiras profundas dizendo que nunca mais voltaria à casa dos pais.

- O que aconteceu? Descobriram?

- Aquele veado francês apareceu lá em casa dando escândalo! Contou pros meus pais…

Eu bem que tinha avisado. É muito arriscado morar com os pais quando se tem vida dupla.

- E o seu noivo?

- Acabou! Ele me despreza. Disse que tinha nojo de mim. Mas quer saber? Eu fiz a escolha certa.

- Claro que sim, você é como eu. Sabe curtir a vida e o dinheiro. E o que puta vende, por que tem de sobra, é prazer…

- Putas até morrer! – brindamos.

E caímos na risada e no vinho, após termos decidido dividir o “apê” e alguns clientes. No entanto, notei que a Lu não conseguia disfarçar a sua tristesse. Romper com a família e o namorado era uma barra pesada demais – até para pessoas como nós.

Quando entrei nessa vida, senti que morria e renascia como outra pessoa. Mas o meu caso era bem diferente do caso da Lu. Talvez ela possa estar experimentando a morte da antiga Luísa, só agora – agora, que as pessoas que ela amava, sabiam.

- Acho que não tem mais volta, não é?

A minha amiga não estava a fim de faculdade… Desmarcou clientes… Então, terça, antes de sair, eu a vi em frente à TV, tomando sorvete de creme. Parecia um pouco melhor. Bem, eu precisava ir pro night club.

- Lu, tô indo nessa! Te cuida, hein?

Não vi a minha amiga na quarta; na quinta… Estava começando a me preocupar. E se ela tivesse feito alguma besteira? Não. Ela não era desse tipo.

Sexta, de noite, a Luísa chegou estonteante, com um vestido novo vermelho. Fiquei aliviada ao ver que minha amiga estava bem. E, claro, mais aliviada ainda, por saber que ela tinha voltado ao trabalho. Isso garantiria o nosso aluguel.

- Tenho um cliente especial. Tava me preparando… Olha o que eu ganhei! – disse, apontando para o seu vestido Hercovitch.

- Vai acompanhar algum mega empresário?

- Não. Paga melhor!

- Quem?

- Meu ex noivo!

Manu Quelis





Juliana Paes, Fidel Castro e o futebol nacional

21 05 2009

Toda vida fui uma pessoa eclética e sempre tive amigos que pensavam de todas as possíveis e inimagináveis formas. Porém, nunca fui julgado por minhas atitudes, tampouco por meus modos. Mas, por certo, sempre me fizeram muitas perguntas a respeito. Como posso conhecer hippies e frequentar raves ou me envolver com grupos intelectuais, para escrever artigos, ou, simplesmente, discutir política internacional?

Ouvir desde antigas canções italianas e espanholas ao rock progressivo americano, não se trata de pura auto-estima ou demonstração de grande conhecimento. Mas, sim, de múltiplos interesses e prazer próprio. Claro: soa estranho a alguns, tal posição eclética…

Na semana passada, em um shopping center na cidade de BH, resolvi fazer algo que há muito não fazia: entrar em uma loja de CD´s (porque não?) e comprar alguns para ouvir em casa e relaxar –  embora hoje as coisas mudaram demasiadamente, não é mesmo? O que era CD virou MP3; a bala, antes encontrada, hoje é perdida; carnaval de rua se chama micareta; guaraná Taí virou Kuat e por aí vai, embora nenhum deles realmente deixou de existir…

Rodeado de inúmeras opções, diversos artistas, músicas variadas e estilos discrepantes, resolvi comprar o que gosto, e não fugindo ao meu modo, escolhi um belo CD de canções espanholas de Julio Iglesias e um ótimo Ozzy Osbourne – em um show ao vivo. Com ambos os discos, me dirigi ao atendente da loja. O mesmo, bem ao estilo “bom entendedor musical” (camisa de rock, tênis all star, costeletas…), me olhou normalmente, pegou os dois CDs, verificou com atenção quais eram os artistas, e, sem titubear, me perguntou:

- Este é para presente não é? – rindo e me mostrando, com maestria, o CD do famoso cantor espanhol. Olhei para seus olhos e respondi:

- Não precisa embrulhar – “ó senhor da música e que tudo sabe”. Ambos são mesmo para mim.

Surpreso, mas sem demonstrar muito – aliás, vende-se até “Calipso” por ali – somou o valor da compra, colocou ambos os discos na sacola, recebeu o pagamento e agradeceu minha visita.

Então, saí do shopping center, comprei um milk-shake e no caminho, enquanto voltava para o hotel, me perguntaram onde ficava o Palácio das Artes (devo parecer um típico belo horizontino). Virei e respondi ao jovem, em bom e claro spanish: ¡No lo sé, no soy de aquí! ¿Vale?”

No apartamento, liguei o som e comecei a ouvir Paranoid (live with Randy Rhoads), mas sem antes de ter apreciado a bela canção Begin the beguine, ou como diria Iglesias: Volver a empezar por el amor de una mujer

Agora, ao fim de tudo, você deve estar se perguntando onde está a gostosa Juliana Paes; o ditador de pijamas Fidel Castro ou os críticos comentários ao futebol brasileiro. Em lugar nenhum, ou por acaso você leria este texto se o título fosse: “Músicas, amizades e minhas preferências pessoais”?

Felipe Ferreira





Empreendedores, dores, dores, dores, dores…

20 05 2009

Vivemos em uma sociedade tecnicista e neoliberal. Isso corresponde a dizer que cremos que as leis do mercado podem regulamentar boa parte das nossas ações, bem como resolver quase todos nossos problemas institucionais e sociais. Isto significa, também, afirmar que a evolução da ciência e do desenvolvimento de novas tecnologias, como por exemplo, a engenharia genética e a nano robótica, serão capazes, juntamente com as políticas de privatização e minimização do Estado, frente às grandes corporações, de resolver desde o aquecimento global até a inquietante dúvida existencial hamletiana: ter um filho de olhos verdes ou azuis?

Sei que a palavra neoliberal é amplamente utilizada e é associada a discursos de “baderneiros revolucionários”. No entanto, não encontro outra palavra para classificar nossa cultura empresarial – e também não tenho culpa se o marxismo vulgar, que vive de resquícios de utopia, a utilizou para caracterizar desde o capital financeiro especulativo até as mais diversas relações amorosas ou as rosquinhas que a dona Zélia comercializa em sua venda. Nesse sentido, nossas relações são todas empurradas para o buraco negro da economia. Altusser matou sua mulher e se suicidou, mas por vezes ainda se ressuscita a idéia de um mundo regido por emaranhados de dominações, aparelhos ideológicos do Estado e determinações.

Nos tempos do 1000 km/h, sem curva ou quebra mola, um “grande” homem é aquele que domina os trejeitos empresariais, aquele que conhece a lógica empreendedora, um ser criativo, capacitado para as novas transformações do mercado. Ou aquele que domina amplamente as novas tecnologias ou suas correspondentes pesquisas, como por exemplo, um renomado engenheiro ou um grande geneticista. O estudante das humanidades não serve para quase nada – digo quase nada, por ele poder servir ao requintado mercado cultural, que por vezes torna manifestações populares em sagradas discussões cult. Para que devemos pensar como o Estado moderno se formou, ou entender transformações sócio-culturais da língua portuguesa, se teoricamente isso não se transforma rapidamente em investimento empresarial, não constrói pontes ou não salva vidas?

O homem do século XXI não precisa dominar nenhuma outra língua, apenas as técnicas teatrais que nossos grandes filósofos Roberto Justus e Max Gehringer propagam. Provavelmente, tanto no Cazaquistão como na Alemanha as artimanhas serão as mesmas. A história acabou, chegamos ao ápice: as únicas transformações serão de cunho científico. Embalado pelo canto de Fukuyama, o macaco-robô do século XXI não crê em mudanças drásticas, pois é natural do Homo Sapiens Sapiens ser Consumus Consumus. É natural que tudo seja como é nesse instante. Nos vemos, assim, entregues a vestir ternos, fazer cursos de redação empresarial, de gerenciamento, de liderança e ver neles a solução para o desemprego no Brasil, bem como para o fim da AIDS no Sudão. Temos que aceitar, nas palavras de Marshal Sahllins a “ignorância auto-imposta do pós-modernismo e a presumida onisciência do neoliberalismo: o primeiro, atacado por um sentimento paralisante de indeterminação, o segundo por um sentido exagerado de certeza.”

Não creio que podemos chegar a uma sociedade igualitária, sem hierarquias sociais (não que eu as defenda), onde o Estado se desmancharia naturalmente. Por isso não defendo um projeto clássico de socialismo – não creio que uma revolução política geraria significantes benefícios permanentes. A experiência histórica demonstrou a fragilidade dos modelos políticos que defenderam a revolução armada e a supressão das liberdades em “prol” do coletivo.

Frente a isso, o que fazer de concreto? Pensar 10, 20, 30 vezes antes de comprar. Se a mesma racionalidade aplicada na produção fosse aplicada no consumo, provavelmente produzir-se-ia uma enorme contradição no sistema capitalista. Seria hipócrita de minha parte me colocar a parte disso tudo, até porque a Ricardo Eletro está com uma promoção esse fim de semana!

Não “salvaremos” o Brasil, muito menos o mundo, nos impregnando da lógica empreendedora, o que não significa dizer que defendo a destruição das fábricas e a construção de comunidade hippies vivendo do trabalho manual e do curandeirismo. O que nos falta é olhar para o lado e sentir que existe vida fora do nosso bolso, que para além da bolsa há valores que deveriam ser bem menos instáveis.

Guilherme Claudino