Vivemos em uma sociedade tecnicista e neoliberal. Isso corresponde a dizer que cremos que as leis do mercado podem regulamentar boa parte das nossas ações, bem como resolver quase todos nossos problemas institucionais e sociais. Isto significa, também, afirmar que a evolução da ciência e do desenvolvimento de novas tecnologias, como por exemplo, a engenharia genética e a nano robótica, serão capazes, juntamente com as políticas de privatização e minimização do Estado, frente às grandes corporações, de resolver desde o aquecimento global até a inquietante dúvida existencial hamletiana: ter um filho de olhos verdes ou azuis?
Sei que a palavra neoliberal é amplamente utilizada e é associada a discursos de “baderneiros revolucionários”. No entanto, não encontro outra palavra para classificar nossa cultura empresarial – e também não tenho culpa se o marxismo vulgar, que vive de resquícios de utopia, a utilizou para caracterizar desde o capital financeiro especulativo até as mais diversas relações amorosas ou as rosquinhas que a dona Zélia comercializa em sua venda. Nesse sentido, nossas relações são todas empurradas para o buraco negro da economia. Altusser matou sua mulher e se suicidou, mas por vezes ainda se ressuscita a idéia de um mundo regido por emaranhados de dominações, aparelhos ideológicos do Estado e determinações.
Nos tempos do 1000 km/h, sem curva ou quebra mola, um “grande” homem é aquele que domina os trejeitos empresariais, aquele que conhece a lógica empreendedora, um ser criativo, capacitado para as novas transformações do mercado. Ou aquele que domina amplamente as novas tecnologias ou suas correspondentes pesquisas, como por exemplo, um renomado engenheiro ou um grande geneticista. O estudante das humanidades não serve para quase nada – digo quase nada, por ele poder servir ao requintado mercado cultural, que por vezes torna manifestações populares em sagradas discussões cult. Para que devemos pensar como o Estado moderno se formou, ou entender transformações sócio-culturais da língua portuguesa, se teoricamente isso não se transforma rapidamente em investimento empresarial, não constrói pontes ou não salva vidas?
O homem do século XXI não precisa dominar nenhuma outra língua, apenas as técnicas teatrais que nossos grandes filósofos Roberto Justus e Max Gehringer propagam. Provavelmente, tanto no Cazaquistão como na Alemanha as artimanhas serão as mesmas. A história acabou, chegamos ao ápice: as únicas transformações serão de cunho científico. Embalado pelo canto de Fukuyama, o macaco-robô do século XXI não crê em mudanças drásticas, pois é natural do Homo Sapiens Sapiens ser Consumus Consumus. É natural que tudo seja como é nesse instante. Nos vemos, assim, entregues a vestir ternos, fazer cursos de redação empresarial, de gerenciamento, de liderança e ver neles a solução para o desemprego no Brasil, bem como para o fim da AIDS no Sudão. Temos que aceitar, nas palavras de Marshal Sahllins a “ignorância auto-imposta do pós-modernismo e a presumida onisciência do neoliberalismo: o primeiro, atacado por um sentimento paralisante de indeterminação, o segundo por um sentido exagerado de certeza.”
Não creio que podemos chegar a uma sociedade igualitária, sem hierarquias sociais (não que eu as defenda), onde o Estado se desmancharia naturalmente. Por isso não defendo um projeto clássico de socialismo – não creio que uma revolução política geraria significantes benefícios permanentes. A experiência histórica demonstrou a fragilidade dos modelos políticos que defenderam a revolução armada e a supressão das liberdades em “prol” do coletivo.
Frente a isso, o que fazer de concreto? Pensar 10, 20, 30 vezes antes de comprar. Se a mesma racionalidade aplicada na produção fosse aplicada no consumo, provavelmente produzir-se-ia uma enorme contradição no sistema capitalista. Seria hipócrita de minha parte me colocar a parte disso tudo, até porque a Ricardo Eletro está com uma promoção esse fim de semana!
Não “salvaremos” o Brasil, muito menos o mundo, nos impregnando da lógica empreendedora, o que não significa dizer que defendo a destruição das fábricas e a construção de comunidade hippies vivendo do trabalho manual e do curandeirismo. O que nos falta é olhar para o lado e sentir que existe vida fora do nosso bolso, que para além da bolsa há valores que deveriam ser bem menos instáveis.
Guilherme Claudino





Não chegaremos a uma sociedade igualitária, mas temos que tentar diminuir as desigualdades. E eu acho que um ponto positivo dessa crise é que a participação do Estado na economia vai sair fortalecido. Podem falar que a máquina estatal inchada gera gastos, aumenta a burocracia e tudo mais. No fim das contas é Nele em que todas as grandes empresas desse capitalismo maluco e representantes do consumo depositam as esperanças. A máquina estatal, bem utilizada, pode fazer com que as desigualdades no mundo diminuam. É claro que os grandes países desse mundão de meu deus têm que concordar com isso neh.
Gui, continuem com esses textos bacanas, sobre todo tipo de assunto, que move muitas e muitas discussões de buteco.
Abração a todos!!!!!
O mundo não cabe no breve espaço de “pensar”. Pode ser… mas cabe menos ainda no covarde epaço de “ignorar”… O pensamento traz a mudança ou a mudança traz o pensamento? Linguagem ou ação? Façamos desses dois o que soubermos fazer melhor, e já estaremos mudando muito!
Belas palavras! Belos pensamentos!
Beijos!!!