Na sexta passada ela bateu na minha porta com sete malas, olhos inchados e olheiras profundas dizendo que nunca mais voltaria à casa dos pais.
- O que aconteceu? Descobriram?
- Aquele veado francês apareceu lá em casa dando escândalo! Contou pros meus pais…
Eu bem que tinha avisado. É muito arriscado morar com os pais quando se tem vida dupla.
- E o seu noivo?
- Acabou! Ele me despreza. Disse que tinha nojo de mim. Mas quer saber? Eu fiz a escolha certa.
- Claro que sim, você é como eu. Sabe curtir a vida e o dinheiro. E o que puta vende, por que tem de sobra, é prazer…
- Putas até morrer! – brindamos.
E caímos na risada e no vinho, após termos decidido dividir o “apê” e alguns clientes. No entanto, notei que a Lu não conseguia disfarçar a sua tristesse. Romper com a família e o namorado era uma barra pesada demais – até para pessoas como nós.
Quando entrei nessa vida, senti que morria e renascia como outra pessoa. Mas o meu caso era bem diferente do caso da Lu. Talvez ela possa estar experimentando a morte da antiga Luísa, só agora – agora, que as pessoas que ela amava, sabiam.
- Acho que não tem mais volta, não é?
A minha amiga não estava a fim de faculdade… Desmarcou clientes… Então, terça, antes de sair, eu a vi em frente à TV, tomando sorvete de creme. Parecia um pouco melhor. Bem, eu precisava ir pro night club.
- Lu, tô indo nessa! Te cuida, hein?
Não vi a minha amiga na quarta; na quinta… Estava começando a me preocupar. E se ela tivesse feito alguma besteira? Não. Ela não era desse tipo.
Sexta, de noite, a Luísa chegou estonteante, com um vestido novo vermelho. Fiquei aliviada ao ver que minha amiga estava bem. E, claro, mais aliviada ainda, por saber que ela tinha voltado ao trabalho. Isso garantiria o nosso aluguel.
- Tenho um cliente especial. Tava me preparando… Olha o que eu ganhei! – disse, apontando para o seu vestido Hercovitch.
- Vai acompanhar algum mega empresário?
- Não. Paga melhor!
- Quem?
- Meu ex noivo!
Manu Quelis




