Milhões de faces, milhões delas, projetando-se de milhões de cabeças que se erguem de milhões de tórax. O mesmo número de abdomens e quatro vezes mais membros, entre braços e pernas, em média. O conjunto de tudo isso forma milhões de seres humanos, que rastejam sobre milhares de ruas feitas de asfalto sujo, frio, úmido. Dessas ruas se levantam milhares de prédios de concreto cinza, que arranham as incontáveis nuvens em alturas inimagináveis, lá em cima, da mesma melancolia cinzenta. Melancolia. Essa massa de rostos, tórax, abdomens e membros vai de encontro a destinos cujo os quais ignoro, cujo os quais não quero conhecer. Não é do meu interesse se vão ou vêm, para lá ou para cá, o que me importa? Um cataclismo arrasou o mundo e o fez desmoronar por completo: o mundo deixou de existir. Isso é o que importa.
Restam, então, apenas ela e eu. Apenas nós dois, entre a multidão. Mas não a quero ao meu lado, não a quero comigo, não a desejo. Quero despistá-la, livrar-me dela. Tento alguma manobra, entro em algum beco, enveredo para algum pensamento… tudo em vão. Minha companheira obstinada, você jamais falha; cá está, me assombrando, cumprindo com toda a competência que lhe cabe o que se propõe a fazer, desde sempre e para sempre.
Um alemão não saberia nomeá-la, tão pouco um russo. Nem um chinês saberia. Nenhum dos milhares de povos africanos ou do oceano pacífico a batizou. Um tailandês ficaria calado, assim como um turco ou um canadense. Nem mesmo um inglês. O restante do mundo se calaria, mas a conhecem tão bem quanto eu, quanto você. A única diferença é que nós sabemos a sua identidade e a nomeamos muito bem. Dizem que sofremos ainda mais sua presença por saber nomeá-la. Azar nosso.
Sei seu nome, cá ela está. Não haveria nome mais perfeito. Sinto o gosto amargo na boca, o estômago se remoendo, a aflição da ausência. Enquanto caminho por um mundo destruído, entre milhões de faces apáticas e desinteressantes, ela me acompanha. Restam apenas ela e eu em meio ao vazio pós-cataclismo. Nostalgia. Flashs de lembranças, perda, luto, distância. Culpa. Ela jamais falha.
Insiste em me saudar e se fazer notar. Questão de saúde, há dor. Posso crer que é ela quem me desperta toda manhã, pois é a primeira a se mostrar para mim. Está também em meus sonhos, fazendo parte de cada um deles. Sensação de ausência. Tristeza. Daltonismo da alma, o cinza que me envolve. Vida monocromática. Quero despistá-la, sou um incompetente. Preciso despistá-la, falho em cada um das minhas tentativas.
Solitudine, solitudo, solus, só, solidão. Solitate, solitarius, solitário. Salute, saúde, salutare, saludar, saudar. Saudade, eis o seu nome. Minha companheira, aquela que se faz presente pela ausência, aquela que nós, e só nós, de herança lusa, sabemos sua identidade, e por isso a sofremos ainda mais.
Caminho entre milhões de faces, em meio a milhares de prédios, em qualquer uma das milhares de ruas desse lugar. Estou só, ela comigo. O cataclismo que destruiu o mundo trouxe o vazio que toma a minha alma, alma daltônica. É nesse vazio que ela fixa residência, e de lá manda seu recado ininterrupto. Dor que não cessa. Luto. Fim. Na aflição da ausência ela saúda a sua presença.
Perda do essencial, da inspiração, das cores, do sentido. Término. Culpa. Lágrimas. O mundo ruiu. Milhões de faces que não me dizem nada, absolutamente nada. Estou só. Distância. Eu a perdi, a saudade ocupou seu lugar.
Egon Zakuska