sabedoria etílica (para aqueles que acreditam que “in pinga, veritas”)

30 06 2009

Outro dia saí de casa pra trabalhar, vinte pras oito da noite, e sentei no banco do ponto do ônibus, que fica em frente a um cruzamento onde uma das ruas é de mão única e, com considerável freqüência, vemos motoristas desavisados (sim, porque não há placas), entrar por ali na contra-mão. Neste dia, logo depois, sentou ao meu lado um senhor, decentemente vestido, mas alcoolicamente fedido. Ficou jogando palavras ao vento como os que padecem do vício fazem. Sim, ele era alcoólatra, tendo, inclusive, afirmado isso: “tenho duas filhas, uma médica e uma fisioterapeuta; e olha que sou alcoólatra”. No instante seguinte, mais um desavisado entra na contramão. Eu dou uma levantada no corpo e levo a mão a cabeça, num susto. Nisto, o senhor exclama: “é isso, é isso que dá! ficar pensando no ontem, dá nisso. sabe, menina, porque os acidentes acontecem? porque as pessoas ficam pensando no ontem. ora, o ontem já passou, não temos que pensar no ontem. temos que colocar a atenção no hoje, que é o que está acontecendo, e no futuro que acontecerá daqui a pouco. Quem pensa no ontem não vive, e acaba fazendo besteira.” Tive que agüentar mais umas ou outras divagações daquela figura, até que chegou o ônibus. Mas aquelas suas palavras fizeram total sentido para mim.

Maria





Apenas ela e eu

18 06 2009

Milhões de faces, milhões delas, projetando-se de milhões de cabeças que se erguem de milhões de tórax. O mesmo número de abdomens e quatro vezes mais membros, entre braços e pernas, em média. O conjunto de tudo isso forma milhões de seres humanos, que rastejam sobre milhares de ruas feitas de asfalto sujo, frio, úmido. Dessas ruas se levantam milhares de prédios de concreto cinza, que arranham as incontáveis nuvens em alturas inimagináveis, lá em cima, da mesma melancolia cinzenta. Melancolia. Essa massa de rostos, tórax, abdomens e membros vai de encontro a destinos cujo os quais ignoro, cujo os quais não quero conhecer. Não é do meu interesse se vão ou vêm, para lá ou para cá, o que me importa? Um cataclismo arrasou o mundo e o fez desmoronar por completo: o mundo deixou de existir. Isso é o que importa.

Restam, então, apenas ela e eu. Apenas nós dois, entre a multidão. Mas não a quero ao meu lado, não a quero comigo, não a desejo. Quero despistá-la, livrar-me dela. Tento alguma manobra, entro em algum beco, enveredo para algum pensamento… tudo em vão. Minha companheira obstinada, você jamais falha; cá está, me assombrando, cumprindo com toda a competência que lhe cabe o que se propõe a fazer, desde sempre e para sempre.

Um alemão não saberia nomeá-la, tão pouco um russo. Nem um chinês saberia. Nenhum dos milhares de povos africanos ou do oceano pacífico a batizou. Um tailandês ficaria calado, assim como um turco ou um canadense. Nem mesmo um inglês. O restante do mundo se calaria, mas a conhecem tão bem quanto eu, quanto você. A única diferença é que nós sabemos a sua identidade e a nomeamos muito bem. Dizem que sofremos ainda mais sua presença por saber nomeá-la. Azar nosso.

Sei seu nome, cá ela está. Não haveria nome mais perfeito. Sinto o gosto amargo na boca, o estômago se remoendo, a aflição da ausência. Enquanto caminho por um mundo destruído, entre milhões de faces apáticas e desinteressantes, ela me acompanha. Restam apenas ela e eu em meio ao vazio pós-cataclismo. Nostalgia. Flashs de lembranças, perda, luto, distância. Culpa. Ela jamais falha.

Insiste em me saudar e se fazer notar. Questão de saúde, há dor. Posso crer que é ela quem me desperta toda manhã, pois é a primeira a se mostrar para mim. Está também em meus sonhos, fazendo parte de cada um deles. Sensação de ausência. Tristeza. Daltonismo da alma, o cinza que me envolve. Vida monocromática. Quero despistá-la, sou um incompetente. Preciso despistá-la, falho em cada um das minhas tentativas.

Solitudine, solitudo, solus, só, solidão. Solitate, solitarius, solitário. Salute, saúde, salutare, saludar, saudar. Saudade, eis o seu nome. Minha companheira, aquela que se faz presente pela ausência, aquela que nós, e só nós, de herança lusa, sabemos sua identidade, e por isso a sofremos ainda mais.

Caminho entre milhões de faces, em meio a milhares de prédios, em qualquer uma das milhares de ruas desse lugar. Estou só, ela comigo. O cataclismo que destruiu o mundo trouxe o vazio que toma a minha alma, alma daltônica. É nesse vazio que ela fixa residência, e de lá manda seu recado ininterrupto. Dor que não cessa. Luto. Fim. Na aflição da ausência ela saúda a sua presença.

Perda do essencial, da inspiração, das cores, do sentido. Término. Culpa. Lágrimas. O mundo ruiu. Milhões de faces que não me dizem nada, absolutamente nada. Estou só. Distância. Eu a perdi, a saudade ocupou seu lugar.

Egon Zakuska





E a bula diz: use-a como quiser.

16 06 2009

O que pertence ao público e o que pertence ao privado, nesse novo milênio, está difícil de distinguir. Nem sempre essas esferas, pública e privada, contiveram os mesmos elementos ao longo da história, e períodos de transição como, ao meu ver, o que se vive hoje, são um tanto confusos. Com o advento da internet e a rapidez dos meios de comunicação, muitos conceitos terão que ser revistos. Pra vocês verem a importância da coisa, o tal vídeo da Cicarelli, por exemplo, foi objeto de algumas aulas nas disciplinas Direitos Fundamentais e Direitos da Personalidade no meu mestrado. Afinal, o que a Cicarelli sofreu foi ou não violação da sua intimidade?

Era discussão e opinião que não acabava mais. Com uma coisa todos concordaram: a intimidade é sua e você faz com ela o que bem entender. E assim nos expomos não só em praias, mas em sites de relacionamentos, álbuns digitais, blogs e comentários pela rede afora. Não reclame depois, cara pálida. Participar ou não dessas brincadeiras sombrias, nefastas, sinistras, é pura e simplesmente responsabilidade sua. E as opiniões que as pessoas têm sobre você no seu blog, derivadas das coisas que você escreve, de certa forma, também são.

A título de curiosidade (altamente nerd, mas vamos em frente), os druidas, e a sociedade celta, não faziam o uso da escrita. Para eles a escritura estava carregada de magia e apenas em casos excepcionais poderia ser utilizada. A forma escrita fixava na matéria, de forma definitiva, uma idéia ou um pensamento; matava o que deveria ser vivo ou o que deveria se reviver eternamente. Obviamente eu não sugiro que vivamos como os celtas (o que não é má idéia, principalmente se você é mulher; e se quiser saber mais sobre isso corra atrás e entenderá o que estou dizendo!) mas, o que interessa a presente reflexão é: o que você escreve, ou não, fica. Fica, principalmente, na opinião que os outros têm sobre você. Pra mim isso importa. Pra você, não sei. Mas se não importasse, talvez você escrevesse e condenasse seus textos ao buraco negro do seu computador. Se escreve e publica, não é por acaso. É porque quer se expor. É porque quer exercer este ácido desejo humano de se expor. Ou de expor um alguém que gostaria de ser, o que não é vergonhoso nem ilícito, mas pode gerar conseqüências se você não é um personagem literário.

O outro lado – o do leitor, mostra a realidade de que nem todo mundo, muito pelo contrário, vai encarar seu blog como mera literatura onde você é o personagem principal, onde expõe opiniões, gestos e atitudes que, no fundo, no fundo, não são os seus. Criar um personagem para expor o que se gostaria de ser é uma boa idéia. Mas construir um personagem sobre si mesmo, eu já não sei. Isso, cada um é que vai dizer. Assim, volta-se ao início do que foi dito aqui: a intimidade é sua, use-a como quiser.

Obs: as informações sobre os celtas foram retiradas do livro “Uma luz sobre Avallon”, pesquisa feita pela professora Maria Nazareth Alvim de Barros, editado pela Mercuryo.

Maria





Rótulos são para produtos e não para seres-humanos

12 06 2009

Eu rotulo
Ele rotula
Nós somos rótulos?

Seria hipocrisia da minha parte dizer que não cometo a burra prática da etiquetação humana . Por um lado, essa prática tem uma funcionalidade organizacional, já que ordena o mundo humano em prateleiras comportamentais.

Prateleiras? Sim. Como se tornou um dado, como dirá um filósofo de Pará de Minas , apodítico e apriorístico, a compra em supermercados, onde os produtos são simetricamente compartimentados e divididos, nos faz reproduzir tal lógica para as relações humanas. Tendemos logo a procurar no outro o prazo de validade, o código de barra e até as recomendações nutricionais.

Como se fossemos produtos uns dos outros, a nossa primeira ação é criar o tipo ideal do outro. Ouço muitas pessoas dizerem, preocupadas, que hoje em dia não dá mais para saber quem é hetero, bi ou gay. Isso como se a “classificação” sexual fosse o guia central para que as relações humanas se desenrolassem. Gera-se, assim, uma série de expectativas com relação ao comportamento do outro. Engolimos esteriótipos que não foram verificados, empiricamente, por nós mesmos, e a partir deles abrimos espaço para a ala da ignorância.

Podem até defender que isso é uma prática natural, já que visa o melhor conhecimento do mundo e, logo, colabora no processo de seleção natural e de evolução da espécie. Mas a linha que separa a defesa, contra as incertezas do mundo e a paranóia aristocrática da classificação hierárquica, é muito tênue e quase sempre nos derruba em armadilhas.

O sociólogo americano, Peter Berger, diz que o ser humano é burro por natureza, já que não pensa sobre as instituições nas quais está inserido. Tomamos como verdades absolutas questões corriqueiras. Associamos, assim, ações humanas com tipos ideais, colocando um rótulo quase que antes de realmente olhar o “produto”.

Não somos produtos e as embalagens quase nunca dizem bem o que carregam dentro. A ordem está invertida, deveríamos primeiro conhecer para classificar e não conhecer a partir de classificações “metafísicas”.

Usei a primeira pessoal do plural. Não estou imune. E deveria estar? “Quem são eles? Quem eles pensam que são?”

Êta sociedade judaico-cristã ocidental de consumo besta sô!

***

[1] Recomendo a leitura do poema de Drummond, “Eu etiqueta”. Recomendo também a análise sobre o mesmo poema feito por Priscila Faria de Moura. Para tanto, venha para o “lócus” Café Bossa Nova, em São João Del Rei, e aproveite os bons papos que habitam as mesas daqui.

[2] Gabriel Abílio. Filósofo nascido em Pará de Minas e que atualmente reside nos bares São Joanenses.

Guilherme Claudino