Eu rotulo
Ele rotula
Nós somos rótulos?
Seria hipocrisia da minha parte dizer que não cometo a burra prática da etiquetação humana . Por um lado, essa prática tem uma funcionalidade organizacional, já que ordena o mundo humano em prateleiras comportamentais.
Prateleiras? Sim. Como se tornou um dado, como dirá um filósofo de Pará de Minas , apodítico e apriorístico, a compra em supermercados, onde os produtos são simetricamente compartimentados e divididos, nos faz reproduzir tal lógica para as relações humanas. Tendemos logo a procurar no outro o prazo de validade, o código de barra e até as recomendações nutricionais.
Como se fossemos produtos uns dos outros, a nossa primeira ação é criar o tipo ideal do outro. Ouço muitas pessoas dizerem, preocupadas, que hoje em dia não dá mais para saber quem é hetero, bi ou gay. Isso como se a “classificação” sexual fosse o guia central para que as relações humanas se desenrolassem. Gera-se, assim, uma série de expectativas com relação ao comportamento do outro. Engolimos esteriótipos que não foram verificados, empiricamente, por nós mesmos, e a partir deles abrimos espaço para a ala da ignorância.
Podem até defender que isso é uma prática natural, já que visa o melhor conhecimento do mundo e, logo, colabora no processo de seleção natural e de evolução da espécie. Mas a linha que separa a defesa, contra as incertezas do mundo e a paranóia aristocrática da classificação hierárquica, é muito tênue e quase sempre nos derruba em armadilhas.
O sociólogo americano, Peter Berger, diz que o ser humano é burro por natureza, já que não pensa sobre as instituições nas quais está inserido. Tomamos como verdades absolutas questões corriqueiras. Associamos, assim, ações humanas com tipos ideais, colocando um rótulo quase que antes de realmente olhar o “produto”.
Não somos produtos e as embalagens quase nunca dizem bem o que carregam dentro. A ordem está invertida, deveríamos primeiro conhecer para classificar e não conhecer a partir de classificações “metafísicas”.
Usei a primeira pessoal do plural. Não estou imune. E deveria estar? “Quem são eles? Quem eles pensam que são?”
Êta sociedade judaico-cristã ocidental de consumo besta sô!
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[1] Recomendo a leitura do poema de Drummond, “Eu etiqueta”. Recomendo também a análise sobre o mesmo poema feito por Priscila Faria de Moura. Para tanto, venha para o “lócus” Café Bossa Nova, em São João Del Rei, e aproveite os bons papos que habitam as mesas daqui.
[2] Gabriel Abílio. Filósofo nascido em Pará de Minas e que atualmente reside nos bares São Joanenses.
Guilherme Claudino





Diria o grande sábio bi bêbado de São João, Abiatar: “Vc é bonito, sua namorada também. Pegaria os dois.” Direto e objetivo. Sem rótulos, sem perguntas. Estas cabem a nós, na crítica, no preconceito, no não se colocar no lugar do outro. Pô, cade a análise do poema?
Abração
Êta sociedade judaico-cristã ocidental de consumo besta sô! [2]
Produtos são bem diferentes das embalagens. Os rótulos são criações, começando pela nossa auto-rotulagem. Criações são desenhos, comportamentos, idéias de um criador. Como toda criação, a presença da imaginação provoca distancia da realidade. Nesse processo de rotulagem, “criamos” pessoas e perdemos a sensibilidade de conhecer o real “produto”. Não sejamos hipócritas, mas o primeiro passo é reconhecer que cada produto é diferente e único e que cada semelhança é mera coincidência.
Acho que isso é uma característica do ser humano mesmo. o que não podemos deixar é que esses rótulos sejam encarados com um pré-conceito sobre alguém. A pessoa pode até ter tal rótulo, mas com certeza há muito por trás. Como disse o Lucas “Nesse processo de rotulagem, “criamos” pessoas e perdemos a sensibilidade de conhecer o real “produto”. Tentemos conhecer o real produto que todos saem ganhando.
“…Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.”
(Carlos Drummond)
Belo texto Gui! Beijos!