O que pertence ao público e o que pertence ao privado, nesse novo milênio, está difícil de distinguir. Nem sempre essas esferas, pública e privada, contiveram os mesmos elementos ao longo da história, e períodos de transição como, ao meu ver, o que se vive hoje, são um tanto confusos. Com o advento da internet e a rapidez dos meios de comunicação, muitos conceitos terão que ser revistos. Pra vocês verem a importância da coisa, o tal vídeo da Cicarelli, por exemplo, foi objeto de algumas aulas nas disciplinas Direitos Fundamentais e Direitos da Personalidade no meu mestrado. Afinal, o que a Cicarelli sofreu foi ou não violação da sua intimidade?
Era discussão e opinião que não acabava mais. Com uma coisa todos concordaram: a intimidade é sua e você faz com ela o que bem entender. E assim nos expomos não só em praias, mas em sites de relacionamentos, álbuns digitais, blogs e comentários pela rede afora. Não reclame depois, cara pálida. Participar ou não dessas brincadeiras sombrias, nefastas, sinistras, é pura e simplesmente responsabilidade sua. E as opiniões que as pessoas têm sobre você no seu blog, derivadas das coisas que você escreve, de certa forma, também são.
A título de curiosidade (altamente nerd, mas vamos em frente), os druidas, e a sociedade celta, não faziam o uso da escrita. Para eles a escritura estava carregada de magia e apenas em casos excepcionais poderia ser utilizada. A forma escrita fixava na matéria, de forma definitiva, uma idéia ou um pensamento; matava o que deveria ser vivo ou o que deveria se reviver eternamente. Obviamente eu não sugiro que vivamos como os celtas (o que não é má idéia, principalmente se você é mulher; e se quiser saber mais sobre isso corra atrás e entenderá o que estou dizendo!) mas, o que interessa a presente reflexão é: o que você escreve, ou não, fica. Fica, principalmente, na opinião que os outros têm sobre você. Pra mim isso importa. Pra você, não sei. Mas se não importasse, talvez você escrevesse e condenasse seus textos ao buraco negro do seu computador. Se escreve e publica, não é por acaso. É porque quer se expor. É porque quer exercer este ácido desejo humano de se expor. Ou de expor um alguém que gostaria de ser, o que não é vergonhoso nem ilícito, mas pode gerar conseqüências se você não é um personagem literário.
O outro lado – o do leitor, mostra a realidade de que nem todo mundo, muito pelo contrário, vai encarar seu blog como mera literatura onde você é o personagem principal, onde expõe opiniões, gestos e atitudes que, no fundo, no fundo, não são os seus. Criar um personagem para expor o que se gostaria de ser é uma boa idéia. Mas construir um personagem sobre si mesmo, eu já não sei. Isso, cada um é que vai dizer. Assim, volta-se ao início do que foi dito aqui: a intimidade é sua, use-a como quiser.
Obs: as informações sobre os celtas foram retiradas do livro “Uma luz sobre Avallon”, pesquisa feita pela professora Maria Nazareth Alvim de Barros, editado pela Mercuryo.
Maria





Olá, Maria! Interessante e instigador o que disse.
É intrigante: quanto mais escrevemos, percebemos as diversas conotações que o interlocutor tem do que leu. Como disse uma amiga, a nós, cabe escrever. Já a interpretação, esqueça, que esta não te pertence, esta é de qualquer um e o que quiser pensar.
A questão da intimidade, usá-la como quiser é direito de ir e vir. Contanto que seu ir acabe onde comece o vir do próximo. E não acho que Cicarelli atrapalhou algo nesse sentido. Também não julgarei o mérito aqui, mas concordo contigo algo que deixaste no vão das palavras (viva Ana Carolina!): ela usou a intimidade como quis. Se deu errado, arque com as consequências adultas (ou não) do que fez.
Então chegamos aos blogues. No meu, raramente escrevo sobre mim, digo, sobre minha intimidade em primeira pessoa, como um diário (embora o blogue tenha sido criado com esse intuito). Porque não gosto de me expor assim. Embora não seja um cara discreto, tenho minhas manias. Mas quando escrevi dessa forma – uns dois, três textos em todo o blogue – a receptividade foi imensa.
Ou seja: todo mundo, mais do que a simpatia de quem escreve, deseja a empatia deste. E isso transforma o discurso em algo vicioso e circulatório, porque voltamos pro início, quando falamos que somos responsáveis pelas reações de quem viu, sentiu ou leu o que fizemos.
Em verdade, dá tesão se expor, todos dando mais importância aos fatos da sua vida do que a delas mesmas. Mas depois, não vá reclamar do ônus, uma vez consumado o bônus. A intimidade é sua, use-a como quiser. Mas esteja preparado.
Bom texto, excelente ponto de vista, Maria. Beijocas!
Ah, a excelente frase do Bukowski aí do lado. Lembro do Misto-Quente, em que ele fala de algo que quase versa com isso: “Lugares como esses davam a você um pouco de esperança quando não havia nenhuma ao seu redor.” (Sobre aquela cafeteria em que qualquer um com um pouco de dinheiro podia se alimentar ou tomar café o dia todo lá, aproveitando o estabelecimento e se sentindo um pouco cidadão.)