“Às vezes, imagino o que dirão de nós os historiadores do futuro. Duas idéias lhes bastarão para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois dessa forte definição, o assunto ficará, se assim posso me expressar, esgotado.”
(Albert Camus)
Você olha no espelho pela manhã; então, não se reconhece.
São seus dentes com pasta dental. A remela no canto do olho. Ressaca. Urina no vaso. O tímpano engolindo a descarga. O frio da água no rosto. Essa lembrança fugida também é sua. Sou eu e não sou, admite: é você e não é.
A mão na maçaneta. O café da manhã. Toda estrutura rudimentar de um sábado inqualificável, capenga, mendiga, capota no flerte com a folhinha na porta da geladeira. Vinte e nove? Já? Não fiz nada. Vinte e nove. Hoje é vinte nove. Os quatro pneus novos rodando no carro. Etiquetas. Prestações. Cifrões e boletos incompetentes embaralhados na sua cabeça. Fim de festa. Aquele sensação de copos descartáveis respirando no vento. Tremura. Comichão de espírito; azedume aniquilando os calcanhares. Um anzol nos calcanhares: desnergia, desdesejo. Brucuto, seu coração. Brucututu, meu coração. Sou eu e não sou eu? Fibrose.
Bip.Bip.Bip. A bandeja do microondas girando sem sair do lugar. Coça a cabeça, mas a coisa não sai. Caspa, talvez – com pouca sorte. Encarapuça a desvontade de tomar aquela cervejinha. De ouvir as mesmas respostas pras mesmas perguntas e vice e versa – não necessariamente nessa desordem. Será despeito? Não há nada pra se fazer com um seio, ainda mais com dois; cachorro que alcançou o carro e não sabe o que fazer. Fareje e abane o rabo. Luzinhas e vozes na televisão. Letrinhas e desinteresses na janela. A quantas anda? O que tem feito? Vinte e nove. Ontem foi vinte e oito. Amanhã é trinta. Trinte e três, disse o médico. Tudo em ordem.
O cisco correndo da vassoura. As frágeis aranhas que moram atrás do guarda roupas. Aceita uma dose? Não, obrigado – é por vontade mesmo: voltarei pra cama, em segredo.
Marcos Vinícius Almeida




