O calo

29 08 2009

“Às vezes, imagino o que dirão de nós os historiadores do futuro. Duas idéias lhes bastarão para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois dessa forte definição, o assunto ficará, se assim posso me expressar, esgotado.”
(Albert Camus)

Você olha no espelho pela manhã; então, não se reconhece.

São seus dentes com pasta dental. A remela no canto do olho. Ressaca. Urina no vaso. O tímpano engolindo a descarga. O frio da água no rosto. Essa lembrança fugida também é sua. Sou eu e não sou, admite: é você e não é.

A mão na maçaneta. O café da manhã. Toda estrutura rudimentar de um sábado inqualificável, capenga, mendiga, capota no flerte com a folhinha na porta da geladeira. Vinte e nove? Já? Não fiz nada. Vinte e nove. Hoje é vinte nove. Os quatro pneus novos rodando no carro. Etiquetas. Prestações. Cifrões e boletos incompetentes embaralhados na sua cabeça. Fim de festa. Aquele sensação de copos descartáveis respirando no vento. Tremura. Comichão de espírito; azedume aniquilando os calcanhares. Um anzol nos calcanhares: desnergia, desdesejo. Brucuto, seu coração. Brucututu, meu coração. Sou eu e não sou eu? Fibrose.

Bip.Bip.Bip. A bandeja do microondas girando sem sair do lugar. Coça a cabeça, mas a coisa não sai. Caspa, talvez – com pouca sorte. Encarapuça a desvontade de tomar aquela cervejinha. De ouvir as mesmas respostas pras mesmas perguntas e vice e versa – não necessariamente nessa desordem. Será despeito? Não há nada pra se fazer com um seio, ainda mais com dois; cachorro que alcançou o carro e não sabe o que fazer. Fareje e abane o rabo. Luzinhas e vozes na televisão. Letrinhas e desinteresses na janela. A quantas anda? O que tem feito? Vinte e nove. Ontem foi vinte e oito. Amanhã é trinta. Trinte e três, disse o médico. Tudo em ordem.

O cisco correndo da vassoura. As frágeis aranhas que moram atrás do guarda roupas. Aceita uma dose? Não, obrigado – é por vontade mesmo: voltarei pra cama, em segredo.

Marcos Vinícius Almeida





Moro perto do Mestre Miagui

12 08 2009

Ele é um velhinho simpático que parece conhecer o universo como alguém conhece seu próprio rosto. Ele caminha calmamente, sempre com a certeza de onde que ir. Parece flutuar pela calçada, vestido com sua segura simplicidade. Quando passa ao meu lado me olha no fundo dos olhos, de um jeito que desconcerta alma. Parece dizer “para que tanta angústia e desespero meu filho?”. Sinto que ele me conhece desde que nasci. Como pode um olhar atravessar a razão?

Guilherme Claudino