A cidade de Paris, além do seu charme aristocrático que encanta os amantes, possui também o título da capital dos “panelaços” e das manifestações de rua. Essa informação me intrigou ainda mais quando ouvi um respeitado historiador Sanjoanense dizer em um debate que “o povo francês que não é banana como o povo brasileiro, foi às ruas e parou o país”.
Normalmente, nos debates historiográficos, acepções como essa que tipificam as nações como revolucionárias, apáticas ou pacíficas por natureza, são amplamente rejeitadas. O grande incômodo por parte dos historiadores é com relação às explicações da “natureza” do presente pautadas meramente no passado (muitas vezes longínquo).
Em um primeiro momento achei uma bobagem a afirmação de que o povo francês não era “banana” e por isso ia as ruas. Mas um dia me perguntei: Qual o motivo desse país ter tantas manifestações de rua enquanto no Brasil elas são tão mal vistas? Será que somos um povo “banana”?
Aí vai minha limitada e humilde resposta de historiador de buteco:
Lendo o 18 de Brumário de Marx me deparei com uma escrita maravilhosa, digno de um grande romancista. Uma frase desse livro ficou martelando na minha cabeça: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada”.
Ele faz referência, assim, aos revolucionários franceses que utilizavam os símbolos romanos. Marx está se atentado nessa passagem para a construção de um imaginário revolucionário e de uma legitimidade referencial no tempo, construída através de símbolos (bandeiras, hinos, estátuas).
O leitor pode perguntar, o que isso tem a ver com o caráter “revolucionário” do francês?
Bom, o atual hino francês era o hino das jornadas revolucionárias durante a Revolução Francesa (marchem), a atual bandeira francesa é também herdada da Revolução Francesa. Existem monumentos e comemorações tradicionais da Revolução Francesa que fazem parte de um orgulho nacional que é reforçado pela escola e pelo próprio Estado. Sugiro que a constante atualização dos símbolos revolucionários imputou na “cultura” francesa uma visão positiva das manifestações de rua. Eregiu-se, assim, uma memória coletiva elogiosa a ocupação das ruas para reivindicações.
As “manifestações” e as “lutas revolucionárias” da Revolução Francesa se repetiram no século XIX com a Revolução de 1848 e no XX com o maio de 68. Basta acompanhar o noticiário, as maiores greves e manifestações nesse ano de 2009 com relação à crise financeira foram na França. Podemos lembrar também da lei do primeiro emprego ( se não me engano em 2008 ou 2007) que não foi bem aceita e mobilizou milhares de jovens, que a partir de constantes e insistentes manifestações inviabilizaram o decreto do Estado. E mais, o governo tentou mexer na aposentadoria há alguns anos atrás, batata: Rua, faixas, hinos.
Vale lembrar que tudo isso não faz que os franceses sejam menos conservadores politicamente do que nós brasileiros. Sarcozy disse ano passado que o maio de 68 foi uma perda de tempo, fazendo duras críticas às manifestações “revolucionárias”.
Podemos citar também a aproximação entre Jack Chirac com o italiano de extrema-direita Berlusconi na caça a memória comunista européia (caso Batisti). Nesse caso vale lembrar que “as memórias das lutas são lutas de memória”. È o que se percebe na Itália, onde o grupo ligado a Berlusconi tenta a qualquer modo imputar uma imagem negativa aos movimentos comunistas. A França enfrenta também os limites sociais da gramática de poder neoliberal/tecnicista/mercadológico, por isso não podemos cair na visão mítica de um povo essencialmente “revolucionário” e “livre”.
Sugiro que alguém me explique o caso dos constantes “panelaços” de Buenos Aires. Ainda não tenho minha tese de buteco.
Guilherme Pereira Claudino





Ótimo, Guilherme!
Boa análise!
Nunca tinha pensado sobre essa “incorporação” dos símbolos revolucionários pelo Estado francês.
Hoje, no Brasil, muita gente vê com bons olhos quem saiu às ruas na ditadura militar, mas o Estado não incorporou nada, pelo contrário, evitou esses símbolos “revolucionários”.
Há quem diga que a nossa Constituição é de esquerda, mas isso é um rótulo e rótulos são imprecisos e falhos. Não sei se poderíamos falar que a nossa Carta Magna faz parte dessa incorporação.
Há também a proporção. Não se pode comparar a França daquela época e as modificações que ocorreram com o Brasil dos anos 60.
Aguardo a análise sobre o povo argentino!
Abraços,
Arley Salgado
(Belo Horizonte-MG)
Nossa carta magna de esquerda?…Bom, o Florestan Fernandes diz que ela foi feita sob a vigilância da ditadura, por isso várias questões foram omitidas e esquecidas…
Realmente é engraçado como que a incorporação de certos símbolos podem gerar consequências que não estão ao controle do Estado…..
É interessante notar também como que algumas coisas são esquecidas:
Poucas pessoas conehcem o partido liberal exaltado ( por volta da década de 1830)…Eles tinham um projeto extremamente avançado, com propostas muito a frente dos “livres e revolucionários” europeus, como por exemplo a incorporação da mulher na política, dando a mesma igualdade de direitos políticos e jurídicos…Falavam em “reforma agrária”…..Separação entre Estado e igreja…Ampliação da cidadania paras as camadas baixas…E faziam críticas a escravidão….
Prefirimos (infelizmente muitos professores de História) lembrar da nossa inércia, da nossa anestesia…De rir dos “quinto dos infernos”….De achar que somos essencialmente caricatos, bananas…Dom Pedro I puteiro, Dom João porco e bobão….Uma “arqueologia da revolta” vai demonstrar que grande parte das afirmações sobre a nossa essência não passam de mitos…
Guilherme Claudino
(São João del-Rei – MG)
Bem, a nossa Constituição Federal não é, realmente, de esquerda. Na verdade, para mim, ela é uma “Carta Magna” muito, mas muito ambígua, detalhista demais, que tentou abraçar todas as classes e categorias do país e, por isso, muito falha, mas que ampliou, e muito, os direitos e garantias fundamentais dos brasileiros. Isso explica as nossas 58 emendas(a partir de amanhã) em 21 anos.
Gui, essa análise realmente foi muito interessante e concordo plenamente com ela. Os franceses possuem esse lado “revolucionário” da história deles sempre lembrados e enraizados na cultura popular do país.
“A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”
Vamos pegar em armas então e dar um novo sonho aos nossos bisnetos!
Independência Mineira!!!
Mas na República da Bola, há quem dirá que isso prejudicaria o campeonato brasileiro…
Dale Gui, obrigado pelo comentário…
Concordo com o André..Recuperemos o simbolismo dos liberais exaltadas e façamos a revolução do século XXI…A revolução sem aspas…”Vamos celebrar estupidez humana , a estupidez de todas as nações”
Gui, só pra reforçar de leve o que você escreveu aqui nesse “post”, vai aí uma reflexão que eu li sobre o 20 de setembro gaúcho, que pode explicar o porque do gaúcho ser assim(“nacionalista” e não gay, como muitos devem ter pensado). É de um blog que eu conheci hoje: “Judiciário e Sociedade – Os juízes não pensam só em direito”
http://magrs.net/?p=8199#more-8199
Gui, muito boa a sua análise!
Concordo com você em relação a nossa imagem de brasileiros! Não somos bananas… embora este rótulo nos persiga cruelmente há muito tempo. às vezes quase me fazem acreditar nisso!
Ao contrário do que dizem, temos memória, sim! Mas não temos certeza de que essa memória realmente nos pertence. Nós nos acomodamos porque, afinal, raríssimas vezes tivemos que brigar pelo que é nosso. Aceitamos pacíficos demais todas farsas impostas desde a época da colonização (quando éramos ingênuos índios).
Precisamos colocar o dedo na ferida, pondo de lado o nosso bom humor e capacidade de rir das nossas próprias misérias, e pensar no que realmente queremos daqui pra frente, mas o mais importante COMO vamos chegar lá. Eu sinceramente não sei ainda. Mas sei que se eu sair pra protestar na avenida aqui de casa terei um fim bem menos nobre que o da Bárbara Heliodora: serei calada por uma buzina do carro no engarrafamento. Boa idéia a dos franceses, de estimular o uso das bicicletas!
Sim, as bicicletas…Esse bichos exóticos que não sabemos mais usar…