Os silêncios da história e o massacre da memória

7 10 2009

Num desses escuros becos da História brasileira, me deparei com uma pergunta que instigou profundamente minha curiosidade: Qual terá sido a dimensão do golpe de 1964 em Varginha?

Com essa dúvida iniciei minha jornada por essa fascinante vereda. Meu interesse é em específico pelos opositores ao golpe, aqueles que foram perseguidos e resistiram ao governo ditatorial.

Em busca de relatos cheguei a alguns nomes e acabei restringindo minha pesquisa para os que haviam sido perseguidos e presos.

Por intermédio do meu tio, vulgo Nico da Cive, marquei o encontro com um senhor, que pelas circunstâncias prefiro omitir o nome, para fazer algumas perguntas e coletar algumas informações. Chegando ao local combinado tomei um banho gelado logo de cara. O homem de cabelos brancos, de idade avançada e uma firmeza ao cumprimentar que não condiz com sua idade, se recusou a falar. Disse que esse passado o atormenta, que são lembranças tristes, que viu muita coisa e que dói mexer nesse baú da memória. Apenas me deu alguns outros nomes de pessoas que haviam sido presas. Senti naquele aperto de mão da despedida a força de um homem esquecido na memória coletiva da cidade.

Esse silêncio em um primeiro momento me deixou decepcionado. Mas como para o historiador até o silêncio pode ser uma fonte, tentei pensar sobre o ocorrido. E por uma questão de raciocínio lógico, que nem sempre é o melhor caminho na área das ciências humanas, cheguei a uma conclusão. Se esse homem teme publicizar esse passado é porque ele realmente foi atemorizante, o que nos leva a repensar a repressão militar no interior do país, quase nunca levada muito a sério, já que se parte do pressuposto que tanto a resistência como a repressão se encontravam centralizados nos grandes centros.

Pensei algo mais. Como é triste e até revoltante ver que muito desses homens foram esquecidos e podem morrer quase que no anonimato, enquanto braços da ditadura estão na ponta da língua da memória política local e mais, que círculos políticos ligados a esses nomes continuam na ativa e com grande força local e até com projeção nacional. “A memória de lutas são lutas de memória”, por isso mexer nesse baú pode ocasionar certos incômodos que ferem a construção de algumas imagens e nomes de famílias e políticos da cidade.

Como a memória individual, a memória coletiva é também seletiva. Alguns fatos são escolhidos para ficar de fora da prateleira da história e outras para serem expostos em outdoors. O passado muito das vezes é à base de legitimidade do presente. Grande parte dos discursos políticos são pautados em referências que os ligam a um nome, grupo ou fato do passado.

Não quero recuperar aqui debates sobre esquerda e direita. Capitalismo ou Comunismo. Só acho que nossa cidade não pode morrer de Alzheimer

Guilherme Pereira Claudino





Memórias de um longiquistanês

26 05 2009

Ligo a TV: pessoas protestam no Livrequistão. Bombas de efeito moral, tumulto, correria… Outra manifestação: dessa vez no Bombaquistão. Mortos! O âncora chama a atenção para a depredação e passa para a próxima manchete. Não menciona o que tirou de casa o jovem de blusa vermelha; não diz o que motivou o uso da pólvora; não fala sobre o movimento… Segue para o momento educativo: cinco minutos de benefícios do protetor solar… Não, alguém morreu no Bombaquistão! Não foi de câncer de pele!

Propaganda… Tento imaginar, no intervalo, o impacto de pessoas aglomeradas nas ruas – unidas em torno de uma causa. Mas qual? O que os ameaçam? Por que elas lutam? Por que resistem? O âncora volta – mas não retorna com mais notícias dos protestos. Lembro dos ativistas bombaquistaneses, com cartazes em livrequistanês! Eles falam para o mundo! Mas não adianta mudar de canal na minha TV! Meus conterrâneos estão ocupados com outra coisa! Perdi a notícia. O vizinho tenta, em vão, me convencer, dizendo que são todos baderneiros: “uma minoria, à toa, que gosta de atrapalhar o fluxo… Tem é que descer o cacete!”.

Ainda bem que criaram a internet.

André Paravizo





O estágio é bíblico e universal

17 05 2009

Adão foi o primeiro estagiário. Sim! Trabalhou de graça pra Deus e, em troca, ganhou? Alguns podem dizer a vida, mas não me interesso aqui em discutir formas tão espirituais de remuneração. No final das contas, o povo aplaude o que fica para a posteridade – e, anos e anos depois, nas escolas, o reconhecimento do primeiro trabalho humano ficou para Lineu, que, segundo nossos professores, do ensino fundamental, foi quem categorizou com eficiência as espécies, as famílias…

Mas voltando a experiência do Paraíso: o primeiro exemplar do Homo sapiens sapiens, sim, teve a oportunidade de ser avaliado pelo VERDADEIRO Todo Poderoso. Adão era observado enquanto nomeava os animais (incluindo aqueles que entraram para a nossa lista de seres extintos), na árdua tarefa de exercitar bem a memória, uma vez que, nosso protagonista era analfabeto – não podendo, então, registrar seus feitos. Por sorte, a seleção natural ou um meteoro (ou os dois juntos) já haviam lhe poupado, antes de sua própria criação, de uma tarefa que poderia ser ainda maior.

Quando fez o homem, o Criador já havia povoado a Terra com répteis, no “período” que chamou de “quinto dia”. Eram 24 horas bíblicas* preparadas para engolir os dinossauros. Uma prova de que nem sempre a Religião quis sacanear o Pensamento Racional humano: se não fosse por isso, o que sobraria, profissionalmente, para os nossos criativos paleontólogos desenterrarem hoje?

Com todo respeito, na linguagem destes especialistas, “estauricossauro”, quer dizer “lagarto cruzeiro do sul”, assim como “estegossauro” é “lagarto telhado”. Mas para o nosso Adão, “lagarto” era “lagarto” mesmo – e por que não? Ao contrário dos dias atuais, na vanguarda da mão-de-obra, estava ali o nosso projeto de proletário agindo sem concorrência; sem precisar de período de experiência e nem referências de antigos empregadores!

Mas, infelizmente, por azar (ou sorte), esta penúltima cria de Deus, ainda não respirava o tempo dos livros de auto-ajuda e nem a vedete “Era da Intuição”. Como acontece ainda nas empresas de hoje, Adão, seduzido pela fofocas que circulam na “rádio-peão” da gênesis, foi enganado de supetão pela curiosidade vã. Quando acusado de ingerir o “fruto-proibido”, claro, delatou a mulher. Eva, nua, ainda sem conhecer a Vergonha, quando indagada, culpou a Cobra. A Cobra talvez quisesse entregar de tabela o Diabo, contudo, corria o risco de perder seus 4 mil anos de fama (eternizados em simbologias e misticismo): rastejou então pela fama.

Assim, gratuitamente, Adão tornou-se o primeiro trabalhador a degustar a azia. Demitido por justa causa – sem direito a algo semelhante ao Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço (FGTS) brasileiro – só lhe restou procurar outra porta. Sim, naqueles tempos, à luz do contrato, assim como hoje, o estágio também não caracterizava vínculo empregatício. Benefícios como o Seguro Desemprego é conquista recente da carteira assinada, retomando o raciocínio, tanto aqui, como para quem saiu, com uma folha na frente e uma mão atrás, do Paraíso.

***

*Horas bíblicas: ainda não há registros bibliográficos de como converter unidades do tempo geológico da Ciência, para o relógio do Pai Celestial – uma deixa para aqueles que precisam pesquisar ou publicar alguma coisa…

André Paravizo





Roda Gigante

10 05 2009

Lavras, 13 de Março de 2008.

15h10min – Acabo de chegar da universidade. Estou tomando meu café na janela.

15h15min – A gata dos vizinhos se esfrega na escada para a empregada do síndico, que carrega, junto com sua bolsa, o lixo do patrão. Após ajeitar os dois sacos pretos na lixeira do prédio, ela me cumprimenta com seu fiel sorriso.

15h17min – Outra senhora desce pelo beco. Ela olha para os lados; segue para a lixeira e revira os mesmos sacos. Ela hesita – ouço do primeiro andar o barulho: latinhas. A mulher coloca os recicláveis em outra sacola e também sobe para a avenida.

15h46min – Abro a versão on-line da Folha de S. Paulo. Na manchete, a informação tão comentada no dia anterior… “PIB de 5,4% é o maior desde 2004”.

André Paravizo