curta metragem

13 10 2009

… e depois permaneceram por um tempo ali, largados, semi-nus, semi-vestidos, que na intimidade condizente com a relação que tinham não havia lugar para corpos entrelaçados. Ele passeava com os dedos na linha de pele que ficava à mostra entre a camiseta e seu sexo vestido. Forçando mais para baixo o elástico, sorriu e disse a ela: “você também não é muito adepta de depilações radicais”. Ela não conteve a risada. Ele continuou: “eu gosto”.

Maria





anacrônica ansiedade

8 09 2009

Esfregava as mãos vigorosamente sobre a calça jeans numa tentativa inútil de amenizar o frio úmido daquela varanda do bar. Falava elétrica, mulher de  idéias. Segurava o cigarro do maço que seria abandonado quase cheio sobre a mesa no final da noite, mas a cerveja era bebida lentamente. Fazia de tudo para esconder o nervosismo do tempo que se esgotava desde que recebeu uma ligação do banco de sêmen. Dois dias era o que tinha para decidir engravidar, manter congelado o sêmen do marido morto por mais um ano, ou descartá-lo.

Não fumava mas não se importava com o cigarro da amiga. Gostava mesmo era do chopp dose dupla das terças feiras. O cachorro enroscava-se aos seus pés, entediado com o programa noturno. Era a mais alegre dali, piadista, irônica. Naquela noite, era disfarce. O bichinho olhando para ela com as pálpebras caídas a fazia lembrar que dali a dois dias  encontraria o ex marido, que viria buscá-lo.

Nem gostava tanto assim de beber. Preferia a convivência, as luzes da noite. Ora falava muito, ora nada falava. Olhava para as unhas, curtas maltratadas e sentia-se satisfeita por ter passado uma semana tão ocupada. Em cabeça ocupada não há espaço para idéias más. Só que seu coração batia acelerado, desta vez de tristeza. Eram apenas dois dias e iria encontrá-lo. Dizer que sabia a verdade? Não sabia o que fazer.

Voz baixa, mãos grandes. Um chá gelado, por favor. Era a mais nova da mesa. Ainda pensava se valeria a pena lutar pela renovação de seu contrato ou não: era o preço por uma experiência, mas não lhe enchia os olhos. Queria ir além. Mal sabia que dois dias depois uma vida estaria dentro dela e a sua própria nunca mais seria a mesma.

Para ela, nada gelado. Nada com álcool. O pastel daqui é bom? Sentia muito frio. Se vestia com o bom e o melhor, sempre o mesmo perfume, o cabelo curto era moderno. Tinha um bom emprego e no geral estava feliz. Bem, isso se não fosse o senhorio pedir-lhe o apartamento que acabara de reformar. Faltavam dois dias para sair e ainda não tinha arranjado outro.

Bebia como toda mulher do interior de Minas. Mas só bebia quando o marido vinha buscá-la, pois tinha total e completo senso de responsabilidade em relação a beber e dirigir. Era uma noite dessas. Sempre deslumbrante em sua beleza singela. Mas encimando o sorriso, um olhar quase desesperado. Em dois dias iria rever a família, e junto, as cobranças por um casamento de 12 anos sem filhos.

Era atenta e mal mostrava os dentes. Porém simpática. Rápida, limpa, inteligente. Com alguns até desenvolvia uma conversa mais amigável. Naquele dia pôde parar e observar aquela mesa de mulheres falando alto, muito alto, rindo. Alguma confraternização? Não se deu ao luxo de especular mais. O cliente da mesa ao lado já a chamava. Dispensou-lhe a atenção de sempre. Dois dias e pediria demissão pois, finalmente, conseguira montar o seu salão de beleza.

Maria





A Sobremesa

21 07 2009

Era uma tarde de verão, daquelas quentes em que o sol tem preguiça de ir embora, e do nada apareceu a prima de uma amiga querida, que resolveu subir a serra para dar um alô. Dobrados de fome, agravada pelo sol e pela cerveja, ‘resolvemos’ – uma turma de umas oito pessoas, voto vencido: o meu – almoçar num restaurante de paellas, uma certa estravagância, não exatamente em homenagem à prima, que mal comeu, mas ao clima de alegria que se instalou naquela tarde após sua chegada.

O lugar tem uma cara bem mediterrânea, fica numa colina, e o sol nos fez companhia ainda por um bom tempo. Apesar do clima alegre, excelentes companhias, flertes, ciúmes, sangria espanhola rolando solta, frivolidades, e até um baile improvisado, eu sabia que ia ter que me garantir na sobremesa: as paellas envolviam, é claro, camarões, mariscos, lulas, e tudo mais que vem do mar e eu não como, e os outros pratos eram coelho, cordeiro, e outras esquisitices para as quais torci o nariz.

Ao percorrer o cardápio com os olhos, rezava por um prato de massa enumerado naquela parte ‘pratos infantis’, mas não encontrei. Aquele não era definitivamente um restaurante para crianças. Percebendo minha má vontade que se encaminhava para uma desistência ou uma salada simples, um membro do G-8 pede ao dono do restaurante, que a esta altura já estava sentado em nossa mesa: “faz um bife com ovo para a Maria?”. Que vergonha! Preferia não ter pedido nada a alguém ter dito isso por mim num restaurante de paellas! O dono, pessoa especialíssima, foi demasiadamente gentil e ainda brincou comigo, para diminuir meu constrangimento. Disse afinal que faria o filé. Dispensei o ovo, ele ofereceu fritas. Segue a tarde, segue a sangria, segue o baile.

Sobremesa. Ufa! Finalmente algo espanhol! Uns pediram sorvete, outros, dispensaram, pediram café. “Maria, e você?” Me traga uma ‘crema a catalana’. “E você delator, deseja alguma coisa?” Não, não, só um café. Eu dou um ‘tapa’ na ‘catalana’ da Maria.

A mesa toda ouviu o comentário com malícia e nos desmontamos em risadas. Tarde inesquecível.

Maria





sabedoria etílica (para aqueles que acreditam que “in pinga, veritas”)

30 06 2009

Outro dia saí de casa pra trabalhar, vinte pras oito da noite, e sentei no banco do ponto do ônibus, que fica em frente a um cruzamento onde uma das ruas é de mão única e, com considerável freqüência, vemos motoristas desavisados (sim, porque não há placas), entrar por ali na contra-mão. Neste dia, logo depois, sentou ao meu lado um senhor, decentemente vestido, mas alcoolicamente fedido. Ficou jogando palavras ao vento como os que padecem do vício fazem. Sim, ele era alcoólatra, tendo, inclusive, afirmado isso: “tenho duas filhas, uma médica e uma fisioterapeuta; e olha que sou alcoólatra”. No instante seguinte, mais um desavisado entra na contramão. Eu dou uma levantada no corpo e levo a mão a cabeça, num susto. Nisto, o senhor exclama: “é isso, é isso que dá! ficar pensando no ontem, dá nisso. sabe, menina, porque os acidentes acontecem? porque as pessoas ficam pensando no ontem. ora, o ontem já passou, não temos que pensar no ontem. temos que colocar a atenção no hoje, que é o que está acontecendo, e no futuro que acontecerá daqui a pouco. Quem pensa no ontem não vive, e acaba fazendo besteira.” Tive que agüentar mais umas ou outras divagações daquela figura, até que chegou o ônibus. Mas aquelas suas palavras fizeram total sentido para mim.

Maria