“Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos.
Música suave. Pensamento arguto. Sutis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância. Éramos livres.”
Jorge de Sena, poeta português, em Ode para o Futuro.
“Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos.
Música suave. Pensamento arguto. Sutis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância. Éramos livres.”
Jorge de Sena, poeta português, em Ode para o Futuro.
Você está no barzinho com seu amigos, conversando e se divertindo…e eis que ele aparece: o chato de bar! Ele sempre chega depois da galera, pois gosta de ser visto e de ver o temor nos olhos dos colegas; isso aumenta seu ego, alimenta sua alma; o chato sempre está perto de alguém, sozinho ele não se aguenta, o chato deseja sua atenção, o chato precisa do seu ar.
Todos na mesa trocam olhares para encontrar o responsável pelo convite…em vão…ele nunca é convidado, mas aparece mesmo assim, entra no bar e trata logo de buscar uma cadeira para se acomodar ao lado dos “amigos”. O chato, na verdade, não é amigo de ninguém, mas acha que todos que convivem com ele são seus amigos e por isso devem suportá-lo.
O chato é inconveniente, inoportuno e jamais permanece em silêncio, ele sempre fica perguntando e incomodando todos à sua volta; e nem adianta reclamar, o chato é masoquista, gosta de ser xingado e sentir a importância de sua irritante presença. Seu maior sonho é ser realmente convidado por algum colega para uma festa ou barzinho…mas no fundo sabe, que se isso ocorresse, ele não seria mais chato e nada mais teria graça…
O chato também gosta de cerveja, mas da cerveja dos outros, e por isso, já está com seu copo em mãos para roubar um pouquinho dos demais…O chato também fuma, mas só os cigarros dos outros, seu prazer está em “filar” os cigarros dos “amigos”…importunando-os toda hora! Ele, na realidade, não gasta um centavo no bar, nem anda com carteira; pois sabe que ninguém se importará com isso, desde que ele vá embora o mais rápido possível do bar…
O chato só vai embora quando perceber que sua hegemonia na mesa está por um fio…quando perceber que seu reinado está prestes a desmoronar e sua figura estiver rumando ao ostracismo; ou seja, ele só vai embora quando surge a figura de um chato superior: o bêbado! O bêbado é o chato inconsciente e seu maior inimigo, por isso, o chato vai embora antes que isso ocorra, para salvar seu reinado de chatice e para se satisfazer com a alegria de todos por sua saída…
Assim, o chato se levanta da mesa, e sem gastar nada, volta para sua casa…satisfeito, com sua honra inabalada e seus chatos valores intocáveis, com o sentimento de missão cumprida e com planos para o próximo evento. E nem adianta se esconder, o chato conhece, como ninguém, todos os barzinhos e baladas da região e – como se dotado de um instinto da chatice – é capaz de descobrir exatamente onde você e seus amigos estão, sempre.
Observação: O genial Tom Jobim, frequente vítima dos chatos de bar, possuía uma arma secreta: os óculos de sol. Segundo ele, o chato se desorienta quando evitamos o contato visual, e assim, nos deixa em paz! Dica do mestre.
Felipe Ferreira
Sempre sou chamado de exigente por fazer pedidos que constam nos cardápios mas não existem nos estabelecimentos. Mas, a realidade é que apenas faço o meu papel de cliente, e não vejo nada de errado em pedir o que “está” no cardápio…
Em minha vida, nunca me prendi a uma rotina de atividades, e por isso, busco alterná-las de forma a adquirir experiências e conhecer coisas novas. Em minhas refeições, por exemplo, sempre frequento aquela cafeteria diferente, aquele barzinho novo, restaurantes diversos… para experimentar as novidades, sejam em bebidas, comidas ou simplesmente para curtir os novos ambientes.
Assim, sempre que um cardápio se encontra em minhas mãos, procuro apreciar o que há de melhor em cada cafeteria, bar ou restaurante. Porém, muitas vezes, me encontro com o despreparo, a falta de informação ou a completa ausência daquilo exposto no cardápio desses novos empreendimentos.
Há alguns dias, após sair da universidade, decidi ir a uma nova cafeteria, tomar um bom café, ler o jornal do dia e assim relaxar um pouco após a rotina de estudos. Entro, me acomodo e procuro o cardápio (que em muitos locais, custa a ser encontrado) e chamo a atendente para fazer meu pedido.
Muito educada e atenciosa, com caneta e papel em mãos, ela se prepara para anotar o que pedirei. Olho para o cardápio e faço um simples pedido (sem adrenalina por hoje): um suco de maçã, um sanduíche de frango e um cappuccino com chantilly. Ela anota, olha para atrás, pergunta se desejo algo mais e volta para a cozinha da cafeteria.
Poucos minutos depois, ela retorna com a sentença de que o suco acabou, o chantilly está em falta e não há frango, somente presunto. Com a mão no queixo…olho para ela…olho ao meu redor…olho para minha Folha de São Paulo (pedindo para ser lida) e digo: uma coca-cola, por favor!
- Com gelo e limão?
- Não moça, não precisa de gelo e limão… (será que meu “american way of life” já não basta)?
Depois disso, fiquei pensando como o cardápio em muitos lugares perdeu sua primordial importância: ser o elo entre o cliente e os serviços oferecidos pelo estabelecimento.
Ele se tornou um simples coadjuvante, uma lista que apresenta produtos inexistentes, informações confusas e ausência de clareza…
Porém, sabemos que resolver esses problemas não é difícil: bastam pequenos esforços, que aliados a um correto planejamento e um pouco de criatividade, contribuem à difusão de um bom cardápio, de maneira clara, original e interessante, por que não?
Felipe Ferreira
Toda vida fui uma pessoa eclética e sempre tive amigos que pensavam de todas as possíveis e inimagináveis formas. Porém, nunca fui julgado por minhas atitudes, tampouco por meus modos. Mas, por certo, sempre me fizeram muitas perguntas a respeito. Como posso conhecer hippies e frequentar raves ou me envolver com grupos intelectuais, para escrever artigos, ou, simplesmente, discutir política internacional?
Ouvir desde antigas canções italianas e espanholas ao rock progressivo americano, não se trata de pura auto-estima ou demonstração de grande conhecimento. Mas, sim, de múltiplos interesses e prazer próprio. Claro: soa estranho a alguns, tal posição eclética…
Na semana passada, em um shopping center na cidade de BH, resolvi fazer algo que há muito não fazia: entrar em uma loja de CD´s (porque não?) e comprar alguns para ouvir em casa e relaxar – embora hoje as coisas mudaram demasiadamente, não é mesmo? O que era CD virou MP3; a bala, antes encontrada, hoje é perdida; carnaval de rua se chama micareta; guaraná Taí virou Kuat e por aí vai, embora nenhum deles realmente deixou de existir…
Rodeado de inúmeras opções, diversos artistas, músicas variadas e estilos discrepantes, resolvi comprar o que gosto, e não fugindo ao meu modo, escolhi um belo CD de canções espanholas de Julio Iglesias e um ótimo Ozzy Osbourne – em um show ao vivo. Com ambos os discos, me dirigi ao atendente da loja. O mesmo, bem ao estilo “bom entendedor musical” (camisa de rock, tênis all star, costeletas…), me olhou normalmente, pegou os dois CDs, verificou com atenção quais eram os artistas, e, sem titubear, me perguntou:
- Este é para presente não é? – rindo e me mostrando, com maestria, o CD do famoso cantor espanhol. Olhei para seus olhos e respondi:
- Não precisa embrulhar – “ó senhor da música e que tudo sabe”. Ambos são mesmo para mim.
Surpreso, mas sem demonstrar muito – aliás, vende-se até “Calipso” por ali – somou o valor da compra, colocou ambos os discos na sacola, recebeu o pagamento e agradeceu minha visita.
Então, saí do shopping center, comprei um milk-shake e no caminho, enquanto voltava para o hotel, me perguntaram onde ficava o Palácio das Artes (devo parecer um típico belo horizontino). Virei e respondi ao jovem, em bom e claro spanish: “¡No lo sé, no soy de aquí! ¿Vale?”
No apartamento, liguei o som e comecei a ouvir Paranoid (live with Randy Rhoads), mas sem antes de ter apreciado a bela canção Begin the beguine, ou como diria Iglesias: Volver a empezar por el amor de una mujer…
Agora, ao fim de tudo, você deve estar se perguntando onde está a gostosa Juliana Paes; o ditador de pijamas Fidel Castro ou os críticos comentários ao futebol brasileiro. Em lugar nenhum, ou por acaso você leria este texto se o título fosse: “Músicas, amizades e minhas preferências pessoais”?
Felipe Ferreira