Sete e meia da noite. Anita já estava se preparando pra dormir. Colocara o seu pijama de flanela e fizera um chá bem quente. Não que estivesse frio naquele dia. Muito pelo contrário, afinal de contas era verão. Mas Anita queria aconchego. Ligou o ar condicionado no máximo. Queria que aquela semana terminasse logo. Tomou seu chá na cama e colocou a caneca em cima do criado. Cobriu-se impaciente na esperança de que o sono chegasse logo. Os olhos se fecharam… Mas mil e uma cenas indesejadas começavam a surgir na sua cabeça! Que merda! Mais uma noite daquelas! Era duro perder alguém que se amava tanto!
Tentava pensar em outras coisas, mas ficava remoendo as lembranças de Clara brincando com as suas bonecas quando eram crianças. Clara era sua prima e melhor amiga. Virava e revirava no colchão. As lembranças não davam sossego. Nunca foi tão próxima assim de alguém na vida. Tinham a mesma idade e cresceram juntas. Apesar de serem tão diferentes uma da outra, elas eram unha e carne. Na adolescência, saíam juntas. A Clara era a garota séria, estudiosa. Apesar de linda, era muito tímida e sempre pedia ajuda à Anita, quando o assunto era garotos. Ficar! Clara não curtia esse barato, não! E quando isso acontecia, era namoro na certa! Lembrava de como ria da prima: “Clarinha! Você vai morrer virgem desse jeito! Coitados dos caras que você pega!”. Anita já previa a reprimenda da prima: “Pega? Eu odeio esse seu jeito de falar! Eu não pego, eu namoro!” – e as duas caíam na gargalhada! Curtiam juntas. Iam e voltavam das festas… Bons tempos!
Mas, cada uma tinha, agora, o seu trabalho… a sua vida. Contudo, a cumplicidade não mudara em nada. Ou quase nada! Quantas vezes ia ter que ajeitar essa porcaria de travesseiro! A Campainha tocou. Quem seria? Não esperava e não queria ver ninguém, mas levantou da cama e foi ver quem era.
- Ah, você!
- Não tá muito cedo pra você dormir? – disse o visitante olhando para o pijama de Anita. Era o João! O grande amor da sua vida. O único cara com quem conseguiu visualizar um futuro, casa, filhos…
- O que você quer? Eu não quero ver nem falar com ninguém!
- Eu estava preocupado!
- É mesmo?
- A Clara tem te ligado durante toda essa semana… Deixou recados, mas você não atende o telefone.
- Volta pra lá e diz pra ela continuar tentando. Quem sabe uma hora ela consegue. Deve ser difícil fazer ligação do mundo dos mortos. Pra mim ela faleceu há uma semana.
João forçou a porta e sentou no sofá.
- Eu sei que está sendo difícil pra você. Mas não foi fácil pra nós. Não planejamos nada. Aconteceu. Eu amo a sua prima. E ela me ama: ponto.
- Ótimo. Essa parte eu entendi. Eu só não entendi o que você tá fazendo aqui.
- Nunca traímos você. A Clara tem chorado muito e a coisa mais importante, no mundo, pra ela, é manter a sua amizade. Eu sei que você tá magoada, mas…
- MAIS IMPORTANTE O CARALHO! VOCÊS ME APUNHALARAM PELAS COSTAS!
- Sem drama, Anita… Isso não é verdade. Já te explicamos como as coisas aconteceram ao acaso e como foi uma decisão difícil pra mim e pra Clara. Ela tentou evitar e eu também! Por você, pois é uma irmã pra ela.
- Irmã? – riu Anita, com sarcasmo. – Acho que eu não tenho vocação pra Lúcia. E apesar de gostar de Nelson Rodrigues, não vou encarnar a irmã traída, se é isso que vocês estão pensando. Não tenho pensamentos homicidas em relação a sua Clarinha, pode ficar tranquilo. Mesmo porque pra mim ela nunca existiu. A amiga que eu tinha era uma completa farsa. Não espere que eu aja como se nada tivesse acontecido e vá de madrinha no casamento de vocês.
- Anita, eu sinto muito que você tenha ficado tão magoada. No fundo você sabia que nós dois nunca daríamos certo. Você deixou claro pra mim que não tava a fim de casar agora. E você passava mais tempo viajando a trabalho, do que comigo. Eu sempre senti que sua prioridade não era ficar comigo. Você viajava tanto e eu acabava…
- Trepando com a minha prima enquanto eu tava fora! – interrompeu Anita
- Não é verdade. É que com o tempo eu descobri que a Clara e eu tínhamos muitas afinidades. Eu te amava, Anita, mas eu comecei a amar a sua prima. E fiz minha escolha.
Os olhos de Anita se encheram de água. Era um golpe forte.
- Posso te fazer um pedido? – disse com a voz embargada.
Ele aquiesceu.
- Fica essa noite comigo… – e foi desabotoando o pijama.
João ficou com a boca seca. Perturbado. Parecia uma presa pronta pra ser devorada. Aquele frio, do ar condicionado, deixava a pele de Anita arrepiada. O cabelo dela estava solto. Ela se aproximava e ele não conseguia se mover… O celular no bolso dele tocou. Era Clara. Ela sabia. Ele não atendeu, mas enquanto o telefone tocava, disse olhando nos olhos de Anita em tom decidido.
- Isso nunca mais vai se repetir!
Anita ficou muda. Dava pra ver no seu rosto a confusão. O que fora aquilo? Ela não tivera a intenção. Ao menos, não uma intenção racional. Para João era claramente uma questão de instinto. Mas para ela parecia uma ação natural e totalmente involuntária. Como se ela quisesse testar se ainda tinha algum poder sobre ele e sentir menos abandonada. Mas o que aconteceria? Nunca saberia. Sorriu. Se o telefone não tocasse, ela teria ido até o fim. E, de repente, sentiu um calafrio ao lembrar de Clara. Ainda bem que o telefone tocara. Não chegou a fazer nada do que pudesse se arrepender mais tarde e estava aliviada. A hesitação de João fez com que ela se sentisse vingada e, ao mesmo tempo, envergonhada pelo que tinha feito. Quando aquele telefone tocou, ela teve a certeza de que nunca teria dado certo entre ela e João.
- É melhor eu ir. – disse João sentindo-se irritado com aquele sorriso.
- É melhor sim.
Aquele sorriso na boca dela o incomodou. Mas o pior foi aquela quase cena de Nelson Rodrigues. Ele saiu batendo a porta atrás de si, querendo se ver longe dali o mais rápido possível. Anita continuou estática na sala – sorrindo, com seu pijama ainda desabotoado. Tinha plena consciência que tinha um motivo para ser perdoada, e, então, pôde perdoar. Desta vez, Nelson ficaria desapontado.
Manu Quelis