Yes We Créu: o abacaxi é nosso!

3 10 2009

O abacaxi é nosso

O abacaxi é nosso

Guerra é paz

Liberdade é escravidão

George Orwell, 1984

O esporte é o ópio do povo

Ironia, afirmou o Estado de São Paulo: pra mim, “Yes We Créu” que embalou o twitter na comemoração da vitória carioca na disputa foi uma grande piada. Veio corroborar para a questão que abordei num texto publicado no Observatório da Imprensa referente ao “Fora Sarney”:

- dançamos conforme a música, mesmo criticando; a euforia da massa nos contamina como uma espécie de histeria: e está nas duas faces da moeda. Mas não vou voltar a esse assunto. Quero tentar sintetizar minha opinião a respeito dá escolha do Rio 2016, o que não é fácil.

Ufanismo: Deus é Brasileiro.

A primeira impressão é de presenciar o bom e velho ufanismo chauvinista latino americano em ação. Uma coisa meio desesperadora. Enquanto uma estrangeira diz: “Gostei dessa dança. É tão tribal”, ao clicar no link que explicava o sentido da palavra Créu no trocadilho com o refrão Barack Obama – “Yes, we can”, sujeitos soltam elogios ao amado presidente por essa conquista.

Os que defendem o sentido de conquista, buscam argumento: é uma vitória para os atletas; outros já vem a possibilidade de lucrar; de crescer; o velho refrão do país do por vir, do vir-a-ser, do futuro. Eu pergunto: é preciso uma olimpíada para valorização dos atletas? Eu estudei em escola pública e nunca tive uma aula de educação física decente. Joguei bola no juvenil da cidade, mas na maioria das vezes, a gente que bancava a viagem e comida; perdi até a possibilidade de jogar uma final uma vez, porque não tinha dinheiro pra ir. Hoje a situação é pior: nem secretário de esportes temos na prefeitura de Luminárias. As divisões de base sumiram (e eu estou falando só de futebol, hein?). Natação? Atletismo? Ciclismo? Não. Quando muito umas motos barulhentas soltando CO2 na atmosfera em enduros “Ecológicos”.

Quem lucra e quem paga a conta: 2+2 = 5

Quanto aos lucros, eu vejo gastos. Quem vai pagar a conta das obras que vão custar duas vezes aquilo que governo gasta com o Bolsa Família, o maior “programa social” do governo Lula? Eu, você: cada um de nós. Não é atoa que o Bradesco está apoiando essa campanha com uma bela propaganda na televisão. Talvez sejam eles que vão emprestar o dinheiro ao governo: empréstimo que vai doer nos nossos bolsos. Temos a maior taxação de imposto do mundo, agora imaginem com esse gasto extra? Vocês acham que se fossem em outros tempos, digo – fora da crise, o Brasil pegaria essa “bocada”: nos estamos é com um grande abacaxi nas mãos. O povo de Chicago não queria assumir porque sabia que a hora é de conter e não gastar tanto dinheiro com uma festa.

Ah, mas a Olimpíada traz muitos benefícios!!!

Os Jogos Pan- Americanos não demostraram isso.

O Rio de Janeiro continua lindo 2016: o pavão.

E o espírito olímpico? onde fica? Bom, essa entidade abstrata não vai mudar as relações de pobreza entre as pessoas. Como eu disse no twitter ontem:

“como um pavão vaidoso: de penas lustrosas e pés imundos”

“como um pavão vaidoso: de penas lustrosas e pés imundos”

,

Essa é a situação, nessa minha primeira análise. Vamos recorrer ao agiota pra enfeitar a casa, socar a poeira pra baixo do tapete, descongelar aquele pernil, trancar as crianças bagunceiras no quarto, tirar aquele jogo de louça chinesa que ganhamos da vovó e servir os convidados como não servimos a nós mesmo.

Tomara que eu esteja errado…

Marcos Vinícius Almeida





Filmes do mal

19 09 2009

Clube da luta:

Mulholland Drive:

Laranja Mecânica:

Marcos Vinícius Almeida





O olho

12 09 2009

se eu fosse médium: encorporava você: nesta cadeira azul pra ver o que eu não vejo;

se eu fosse médium: encorporava você: nesta cadeira azul pra ver o que eu não vejo;

existem aqui:

mais ou menos trezentas pessoas e o olho não presta; mas não se engane leitor, não é do tipo de ausência presente: poesia tagarelada nas aulas de Heidegger; é de outra lonjura que a retina manca: nem tchum pra tanta cabeça: cabelo: couro cabeludo: e por dentro alguém que nem é aquilo mesmo. pior de tudo: sou jovem demais; foge da minha jurisdição adjetivá-las de fadigadas; em primeira instância perdi as pernas; em segunda estância o controle; no supremo Ela me tomou o juízo; não; não; não, leitor! metáforas só vão embaralhar a vista: tampar o sol com a peneira, isso sim! esse comichão na nuca: carujando lembrança que nem vai: preguiça do aqui, leitor: apodrece: cavuca silêncio: ferroando no vão: em vão; ah, leitor! você não compreende essa coisa; não dá pra engolir feito aprazolam genérico e dormir; ah, se eu fosse médium: encorporava você: nesta cadeira azul pra ver o que eu não vejo;

um momento leitor:

não é Ela;

estão fazendo uma fila bem ali na frente. Como no INSS só que sem doenças, sem tantas doenças, pelo menos: sem doenças de má-fé, pra ser mais exato. Querem tirar fotos comigo, desocupados! Mas vou dizer um negócio: – fiz previsão destas burocracias: mais ou menos trezentas pessoas e o olho digere uma única ausência; essa camisa social que estou usando é novinha, leitor; mas o tênis, como você pode ver muito bem, é aquele de sempre; aquele que usei ontem; você se lembra, hein? só passei um pano na ponta dele pra tirar os pisões no pé; a camisa está um pouco amarrota nas costas: foi por calor: riçado na bunda e na cadeira; pare a leitura leitor; deixe minha bunda suada em paz; não preste atenção nesses acidentes: esqueça; o que eu preciso dizer é outra coisa: bem simples, aliás: mais ou menos umas trezentas pessoas e o olho não vê só Ela: ou só vê Ela; gruda na ausência feito mosca em papel grudento (papel pega mosca se preferir); que nem olho de pião em bunda de crioula: cachorro em frango de padaria: criança em videogame: o olho pregado na cruz invisível: esqueça essa cruz, aliás esqueça toda a frase anterior. não sou burro, leitor; literatura é um plágio enfeitado da vida; puro congelamento: escrevo essas coisas porque não posso viver: mais ou menos trezentas pessoas e o olho não presta atenção no que vê.

Marcos Vinícius Almeida





O desnome de Deus

5 09 2009

O Deus dos cristãos é um Deus escondido, nenhum nome nos dá a sua essência. Tal é já a lição do Antigo Testamento, que nos mostra o Todo-Poderoso quando se revela a Moisés, apresentando-se sob a designação do famoso tetagrama hebraico Yahweh (abusivamente transcrito Jehovah). Ora esse nome de Deus não é precisamente um nome, mas somente uma afirmação de existência, uma forma verbal que significa simplesmente: ele é. O homem não pode conhecer o nome de Deus, porque conhecer esse nome seria a criatura encontrar-se num plano de igualdade com o seu criador. Só o criador sabe os nomes dos seres que criou – o que significa que neles nada há que para ele esteja escondido.” George Gusdorf – A Palavra

Troque a palavra Deus por: viver, existir, “ser-aí”,

“estar-no-mundo”, “pré-sença”;

Troque ele é por: eu, agora, aqui,

sempre, coisa sem nome;

Troque Yahweh por: Ser, realidade, real, vida;

Troque esse desnome por qualquer nome;

mesmo assim, a única paz está no silêncio

Marcos Vinícius Almeida