A bandeira tricolor e o fervor revolucionário – Uma análise de buteco sobre a história do maior celeiro de motins e manifestações do mundo.

17 09 2009

A cidade de Paris, além do seu charme aristocrático que encanta os amantes, possui também o título da capital dos “panelaços” e das manifestações de rua. Essa informação me intrigou ainda mais quando ouvi um respeitado historiador Sanjoanense dizer em um debate que “o povo francês que não é banana como o povo brasileiro, foi às ruas e parou o país”.

Normalmente, nos debates historiográficos, acepções como essa que tipificam as nações como revolucionárias, apáticas ou pacíficas por natureza, são amplamente rejeitadas. O grande incômodo por parte dos historiadores é com relação às explicações da “natureza” do presente pautadas meramente no passado (muitas vezes longínquo).

Em um primeiro momento achei uma bobagem a afirmação de que o povo francês não era “banana” e por isso ia as ruas. Mas um dia me perguntei: Qual o motivo desse país ter tantas manifestações de rua enquanto no Brasil elas são tão mal vistas? Será que somos um povo “banana”?

Aí vai minha limitada e humilde resposta de historiador de buteco:

Lendo o 18 de Brumário de Marx me deparei com uma escrita maravilhosa, digno de um grande romancista. Uma frase desse livro ficou martelando na minha cabeça: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada”.

Ele faz referência, assim, aos revolucionários franceses que utilizavam os símbolos romanos. Marx está se atentado nessa passagem para a construção de um imaginário revolucionário e de uma legitimidade referencial no tempo, construída através de símbolos (bandeiras, hinos, estátuas).

O leitor pode perguntar, o que isso tem a ver com o caráter “revolucionário” do francês?
Bom, o atual hino francês era o hino das jornadas revolucionárias durante a Revolução Francesa (marchem), a atual bandeira francesa é também herdada da Revolução Francesa. Existem monumentos e comemorações tradicionais da Revolução Francesa que fazem parte de um orgulho nacional que é reforçado pela escola e pelo próprio Estado. Sugiro que a constante atualização dos símbolos revolucionários imputou na “cultura” francesa uma visão positiva das manifestações de rua. Eregiu-se, assim, uma memória coletiva elogiosa a ocupação das ruas para reivindicações.

As “manifestações” e as “lutas revolucionárias” da Revolução Francesa se repetiram no século XIX com a Revolução de 1848 e no XX com o maio de 68. Basta acompanhar o noticiário, as maiores greves e manifestações nesse ano de 2009 com relação à crise financeira foram na França. Podemos lembrar também da lei do primeiro emprego ( se não me engano em 2008 ou 2007) que não foi bem aceita e mobilizou milhares de jovens, que a partir de constantes e insistentes manifestações inviabilizaram o decreto do Estado. E mais, o governo tentou mexer na aposentadoria há alguns anos atrás, batata: Rua, faixas, hinos.

Vale lembrar que tudo isso não faz que os franceses sejam menos conservadores politicamente do que nós brasileiros. Sarcozy disse ano passado que o maio de 68 foi uma perda de tempo, fazendo duras críticas às manifestações “revolucionárias”.

Podemos citar também a aproximação entre Jack Chirac com o italiano de extrema-direita Berlusconi na caça a memória comunista européia (caso Batisti). Nesse caso vale lembrar que “as memórias das lutas são lutas de memória”. È o que se percebe na Itália, onde o grupo ligado a Berlusconi tenta a qualquer modo imputar uma imagem negativa aos movimentos comunistas. A França enfrenta também os limites sociais da gramática de poder neoliberal/tecnicista/mercadológico, por isso não podemos cair na visão mítica de um povo essencialmente “revolucionário” e “livre”.

Sugiro que alguém me explique o caso dos constantes “panelaços” de Buenos Aires. Ainda não tenho minha tese de buteco.

Guilherme Pereira Claudino





Pode sumir a vontade Belchior

2 09 2009

Nos últimos dias, impulsionada pela matéria do Fantástico, a mídia de uma forma geral divulgou perplexa o sumiço de Belchior. O caso virou motivo de comunidades no orkut e textos em blogs. Como seria possível não existir pistas do paradeiro de um grande compositor brasileiro?

Ah Belchior, como fizeram oba oba com o seu sossego. Eles não te entendem meu amigo. Acho que posso lhe chamar assim, já que suas canções falam da minha dor e da minha alegria. Não se assuste com tanta repercussão do seu “sumiço”. Eles preferem que você de uma dica culinária do que nos presenteie com suas belas palavras. Pensam apenas em números. Pensam materialmente. São BBBzistas. Não, você entendeu errado, eu disse BBBzistas e não fascistas. Não, não são racistas, são BBBzistas. Está surdo Belchior? Não disse machistas, disse BBBzistas.

Não querem poetas, querem macacos de circo. Reproduzem com você o mesmo trato que dão a Ivete Sangalo, que precisa publicizar o tempo todo sua vida e o tempo todo atualizar sua imagem na mídia. Bajulação é coisa fácil, que também se esquece fácil.

Sim meu amigo, “eu sou tiete da Ivete”. Mas ela vai embora com o próximo tri-elétrico. Em um país que é carnaval o tempo todo, só quem entende a quarta-feira de cinzas não é esquecido.

Quem se preocupa muito em ser lembrado se esquece de se lembrar do esquecimento humano. O esquecer o outro.

Suma a vontade. Já nos deixou o mais importante, o encanto das suas poesias. Deixe o seu espírito livre, livre-pensador. O tempo não amarelará a sua foto.

Também me interessa muito mais “mudar e amar as coisas”!

Guilherme Claudino – Barão de Frei Eustáquio





Moro perto do Mestre Miagui

12 08 2009

Ele é um velhinho simpático que parece conhecer o universo como alguém conhece seu próprio rosto. Ele caminha calmamente, sempre com a certeza de onde que ir. Parece flutuar pela calçada, vestido com sua segura simplicidade. Quando passa ao meu lado me olha no fundo dos olhos, de um jeito que desconcerta alma. Parece dizer “para que tanta angústia e desespero meu filho?”. Sinto que ele me conhece desde que nasci. Como pode um olhar atravessar a razão?

Guilherme Claudino





Memória de um planeta

15 07 2009

Uma memória só é memória se for lembrada (óbvio não?). Se ninguém registrar minha história ou se as provas materiais da minha existência se perderem, é como se eu não tivesse existido. Voltamos aquela clássica pergunta, se uma árvore cair e ninguém ver, ela realmente caiu?

Francisco Giordani, conhecem? Eu também não, provavelmente um camponês na Idade Média teve esse nome, mas ninguém o conheceu, ele não deixou registros materiais e ninguém o citou. Ele existiu?

O esquecimento me dá náusea!

Eta raça besta, continua achando que o universo gira em torno dos seres senscientes desse pequeno ponto azul.

Como diria um filósofo argentino: “hay que haber disposición”. Créuuuuu!

Guilherme Claudino