Quase, Nelson…

25 09 2009

Sete e meia da noite. Anita já estava se preparando pra dormir. Colocara o seu pijama de flanela e fizera um chá bem quente. Não que estivesse frio naquele dia. Muito pelo contrário, afinal de contas era verão. Mas Anita queria aconchego. Ligou o ar condicionado no máximo. Queria que aquela semana terminasse logo. Tomou seu chá na cama e colocou a caneca em cima do criado. Cobriu-se impaciente na esperança de que o sono chegasse logo. Os olhos se fecharam… Mas mil e uma cenas indesejadas começavam a surgir na sua cabeça! Que merda! Mais uma noite daquelas! Era duro perder alguém que se amava tanto!

Tentava pensar em outras coisas, mas ficava remoendo as lembranças de Clara brincando com as suas bonecas quando eram crianças. Clara era sua prima e melhor amiga. Virava e revirava no colchão. As lembranças não davam sossego. Nunca foi tão próxima assim de alguém na vida. Tinham a mesma idade e cresceram juntas. Apesar de serem tão diferentes uma da outra, elas eram unha e carne. Na adolescência, saíam juntas. A Clara era a garota séria, estudiosa. Apesar de linda, era muito tímida e sempre pedia  ajuda à Anita, quando o assunto era garotos.  Ficar! Clara não curtia esse barato, não! E quando isso acontecia, era namoro na certa! Lembrava de como ria da prima: “Clarinha! Você vai morrer virgem desse jeito! Coitados dos caras que você pega!”. Anita já previa a reprimenda da prima: “Pega? Eu odeio esse seu jeito de falar! Eu não pego, eu namoro!” – e as duas caíam na gargalhada! Curtiam juntas. Iam e voltavam das festas… Bons tempos!

Mas, cada uma tinha, agora, o seu trabalho… a sua vida. Contudo, a cumplicidade não mudara em nada. Ou quase nada! Quantas vezes ia ter que ajeitar essa porcaria de travesseiro! A Campainha tocou. Quem seria? Não esperava e não queria ver ninguém, mas levantou da cama e foi ver quem era.

- Ah, você!

- Não tá muito cedo pra você dormir? – disse o visitante olhando para o pijama de Anita. Era o João! O grande amor da sua vida. O único cara com quem conseguiu visualizar um futuro, casa, filhos…

- O que você quer? Eu não quero ver nem falar com ninguém!

- Eu estava preocupado!

- É mesmo?

- A Clara tem te ligado durante toda essa semana… Deixou recados, mas você não atende o telefone.

- Volta pra lá e diz pra ela continuar tentando. Quem sabe uma hora ela consegue. Deve ser difícil fazer ligação do mundo dos mortos. Pra mim ela faleceu há uma semana.

João forçou a porta e sentou no sofá.

- Eu sei que está sendo difícil pra você. Mas não foi fácil pra nós. Não planejamos nada. Aconteceu. Eu amo a sua prima. E ela me ama: ponto.

- Ótimo. Essa parte eu entendi. Eu só não entendi o que você tá fazendo aqui.

- Nunca traímos você. A Clara tem chorado muito e a coisa mais importante, no mundo, pra ela, é manter a sua amizade. Eu sei que você tá magoada, mas…

- MAIS IMPORTANTE O CARALHO! VOCÊS ME APUNHALARAM PELAS COSTAS!

- Sem drama, Anita… Isso não é verdade. Já te explicamos como as coisas aconteceram ao acaso e como foi uma decisão difícil pra mim e pra Clara. Ela tentou evitar e eu também! Por você, pois é uma irmã pra ela.

- Irmã? – riu Anita, com sarcasmo. – Acho que eu não tenho vocação pra Lúcia. E apesar de gostar de Nelson Rodrigues, não vou encarnar a irmã traída, se é isso que vocês estão pensando. Não tenho pensamentos homicidas em relação a sua Clarinha, pode ficar tranquilo. Mesmo porque pra mim ela nunca existiu. A amiga que eu tinha era uma completa farsa. Não espere que eu aja como se nada tivesse acontecido e vá de madrinha no casamento de vocês.

- Anita, eu sinto muito que você tenha ficado tão magoada. No fundo você sabia que nós dois nunca daríamos certo. Você deixou claro pra mim que não tava a fim de casar agora. E você passava mais tempo viajando a trabalho, do que comigo. Eu sempre senti que sua prioridade não era ficar comigo. Você viajava tanto e eu acabava…

- Trepando com a minha prima enquanto eu tava fora! – interrompeu Anita

- Não é verdade. É que com o tempo eu descobri  que a Clara e eu tínhamos muitas afinidades. Eu te amava, Anita, mas eu comecei a amar a sua prima. E fiz minha escolha.

Os olhos de Anita se encheram de água. Era um golpe forte.

- Posso te fazer um pedido? – disse com a voz embargada.

Ele aquiesceu.

- Fica essa noite comigo… – e foi desabotoando o pijama.

João ficou com a boca seca. Perturbado. Parecia uma presa pronta pra ser devorada. Aquele frio, do ar condicionado, deixava a pele de Anita arrepiada. O cabelo dela estava solto. Ela se aproximava e ele não conseguia se mover… O celular no bolso dele tocou. Era Clara. Ela sabia. Ele não atendeu, mas enquanto o telefone tocava, disse olhando nos olhos de Anita em tom decidido.

- Isso nunca mais vai se repetir!

Anita ficou muda. Dava pra ver no seu rosto a confusão. O que fora aquilo? Ela não tivera a intenção. Ao menos, não uma intenção racional. Para João era claramente uma questão de instinto.  Mas para ela parecia uma ação natural e totalmente involuntária. Como se ela quisesse testar se ainda tinha algum poder sobre ele e sentir menos abandonada. Mas o que aconteceria? Nunca saberia. Sorriu. Se o telefone não tocasse, ela teria ido até o fim. E, de repente, sentiu um calafrio ao lembrar de Clara.  Ainda bem que o telefone tocara. Não chegou a fazer nada do que pudesse se arrepender mais tarde e estava aliviada.  A hesitação de João fez com que ela se sentisse vingada e, ao mesmo tempo, envergonhada pelo que tinha feito. Quando aquele telefone tocou, ela teve a certeza de que nunca teria dado certo entre ela e João.

- É melhor eu ir. – disse João sentindo-se irritado com aquele sorriso.

- É melhor sim.

Aquele sorriso na boca dela o incomodou. Mas o pior foi aquela quase cena de Nelson Rodrigues. Ele saiu batendo a porta atrás de si, querendo se ver longe dali o mais rápido possível. Anita continuou estática na sala  – sorrindo,  com seu pijama ainda desabotoado. Tinha plena consciência que tinha um motivo para ser perdoada, e, então, pôde perdoar. Desta vez, Nelson ficaria desapontado.

Manu Quelis





Filmes do mal

19 09 2009

Clube da luta:

Mulholland Drive:

Laranja Mecânica:

Marcos Vinícius Almeida





A bandeira tricolor e o fervor revolucionário – Uma análise de buteco sobre a história do maior celeiro de motins e manifestações do mundo.

17 09 2009

A cidade de Paris, além do seu charme aristocrático que encanta os amantes, possui também o título da capital dos “panelaços” e das manifestações de rua. Essa informação me intrigou ainda mais quando ouvi um respeitado historiador Sanjoanense dizer em um debate que “o povo francês que não é banana como o povo brasileiro, foi às ruas e parou o país”.

Normalmente, nos debates historiográficos, acepções como essa que tipificam as nações como revolucionárias, apáticas ou pacíficas por natureza, são amplamente rejeitadas. O grande incômodo por parte dos historiadores é com relação às explicações da “natureza” do presente pautadas meramente no passado (muitas vezes longínquo).

Em um primeiro momento achei uma bobagem a afirmação de que o povo francês não era “banana” e por isso ia as ruas. Mas um dia me perguntei: Qual o motivo desse país ter tantas manifestações de rua enquanto no Brasil elas são tão mal vistas? Será que somos um povo “banana”?

Aí vai minha limitada e humilde resposta de historiador de buteco:

Lendo o 18 de Brumário de Marx me deparei com uma escrita maravilhosa, digno de um grande romancista. Uma frase desse livro ficou martelando na minha cabeça: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada”.

Ele faz referência, assim, aos revolucionários franceses que utilizavam os símbolos romanos. Marx está se atentado nessa passagem para a construção de um imaginário revolucionário e de uma legitimidade referencial no tempo, construída através de símbolos (bandeiras, hinos, estátuas).

O leitor pode perguntar, o que isso tem a ver com o caráter “revolucionário” do francês?
Bom, o atual hino francês era o hino das jornadas revolucionárias durante a Revolução Francesa (marchem), a atual bandeira francesa é também herdada da Revolução Francesa. Existem monumentos e comemorações tradicionais da Revolução Francesa que fazem parte de um orgulho nacional que é reforçado pela escola e pelo próprio Estado. Sugiro que a constante atualização dos símbolos revolucionários imputou na “cultura” francesa uma visão positiva das manifestações de rua. Eregiu-se, assim, uma memória coletiva elogiosa a ocupação das ruas para reivindicações.

As “manifestações” e as “lutas revolucionárias” da Revolução Francesa se repetiram no século XIX com a Revolução de 1848 e no XX com o maio de 68. Basta acompanhar o noticiário, as maiores greves e manifestações nesse ano de 2009 com relação à crise financeira foram na França. Podemos lembrar também da lei do primeiro emprego ( se não me engano em 2008 ou 2007) que não foi bem aceita e mobilizou milhares de jovens, que a partir de constantes e insistentes manifestações inviabilizaram o decreto do Estado. E mais, o governo tentou mexer na aposentadoria há alguns anos atrás, batata: Rua, faixas, hinos.

Vale lembrar que tudo isso não faz que os franceses sejam menos conservadores politicamente do que nós brasileiros. Sarcozy disse ano passado que o maio de 68 foi uma perda de tempo, fazendo duras críticas às manifestações “revolucionárias”.

Podemos citar também a aproximação entre Jack Chirac com o italiano de extrema-direita Berlusconi na caça a memória comunista européia (caso Batisti). Nesse caso vale lembrar que “as memórias das lutas são lutas de memória”. È o que se percebe na Itália, onde o grupo ligado a Berlusconi tenta a qualquer modo imputar uma imagem negativa aos movimentos comunistas. A França enfrenta também os limites sociais da gramática de poder neoliberal/tecnicista/mercadológico, por isso não podemos cair na visão mítica de um povo essencialmente “revolucionário” e “livre”.

Sugiro que alguém me explique o caso dos constantes “panelaços” de Buenos Aires. Ainda não tenho minha tese de buteco.

Guilherme Pereira Claudino





O olho

12 09 2009

se eu fosse médium: encorporava você: nesta cadeira azul pra ver o que eu não vejo;

se eu fosse médium: encorporava você: nesta cadeira azul pra ver o que eu não vejo;

existem aqui:

mais ou menos trezentas pessoas e o olho não presta; mas não se engane leitor, não é do tipo de ausência presente: poesia tagarelada nas aulas de Heidegger; é de outra lonjura que a retina manca: nem tchum pra tanta cabeça: cabelo: couro cabeludo: e por dentro alguém que nem é aquilo mesmo. pior de tudo: sou jovem demais; foge da minha jurisdição adjetivá-las de fadigadas; em primeira instância perdi as pernas; em segunda estância o controle; no supremo Ela me tomou o juízo; não; não; não, leitor! metáforas só vão embaralhar a vista: tampar o sol com a peneira, isso sim! esse comichão na nuca: carujando lembrança que nem vai: preguiça do aqui, leitor: apodrece: cavuca silêncio: ferroando no vão: em vão; ah, leitor! você não compreende essa coisa; não dá pra engolir feito aprazolam genérico e dormir; ah, se eu fosse médium: encorporava você: nesta cadeira azul pra ver o que eu não vejo;

um momento leitor:

não é Ela;

estão fazendo uma fila bem ali na frente. Como no INSS só que sem doenças, sem tantas doenças, pelo menos: sem doenças de má-fé, pra ser mais exato. Querem tirar fotos comigo, desocupados! Mas vou dizer um negócio: – fiz previsão destas burocracias: mais ou menos trezentas pessoas e o olho digere uma única ausência; essa camisa social que estou usando é novinha, leitor; mas o tênis, como você pode ver muito bem, é aquele de sempre; aquele que usei ontem; você se lembra, hein? só passei um pano na ponta dele pra tirar os pisões no pé; a camisa está um pouco amarrota nas costas: foi por calor: riçado na bunda e na cadeira; pare a leitura leitor; deixe minha bunda suada em paz; não preste atenção nesses acidentes: esqueça; o que eu preciso dizer é outra coisa: bem simples, aliás: mais ou menos umas trezentas pessoas e o olho não vê só Ela: ou só vê Ela; gruda na ausência feito mosca em papel grudento (papel pega mosca se preferir); que nem olho de pião em bunda de crioula: cachorro em frango de padaria: criança em videogame: o olho pregado na cruz invisível: esqueça essa cruz, aliás esqueça toda a frase anterior. não sou burro, leitor; literatura é um plágio enfeitado da vida; puro congelamento: escrevo essas coisas porque não posso viver: mais ou menos trezentas pessoas e o olho não presta atenção no que vê.

Marcos Vinícius Almeida