Rebolation é bom bom bom

19 05 2010

O texto não vai aferir juízos de valor a tal música, mas tendo ela como base, tentarei fazer algumas reflexões sobre o estereótipo do intelectual.

Quando se fala em intelectual, em pensador, a primeira imagem que temos é de um cara de óculos, todo certinho, com uma roupa que combine dos sapatos a gravata, tomando café sem açúcar, armado de palavras complexas e incapaz de pular uma noite de carnaval. Temos em contraponto a essa imagem, a do “filósofo” alheio aos padrões de vestimenta e comportamento, tendo de necessariamente se adornar como hippie e falar jargões como: “Só”, “to ligado”, “podicrê”.

Em ambos as representações o “pensador” (Não estou falando do Gabriel o dito pensador) é sacralizado, visto como algo externo a “massa”, excêntrico e exótico. È, assim, idealizado como um indivíduo essencialmente com dificuldades de se “enquadrar” nos padrões da população em geral e que sente prazer nessa condição Resumindo e mandando logo no popular: Intelectual não rebola.

Outra questão que está em ambas às imagens é o pavor que os “pensadores” tem de ser classificados na mesma taxionomia que o “povão”. O “intelectual” quer ser sempre antropólogo, olhar por de fora da bolha social. Quer ser diferente, já que a massa, a massa, ah  a massa é burra né? No popular, tem medo de ser mais um na multidão (É não é isso que de fato somos?).

Considerar-se alheio ao coletivo e especial em seu existir ( o famoso última bolacha do pacote) é reativar duas questões já resolvidas dentro da ciência: Primeiramente que não existe indivíduo sem sociedade, somos todos de alguma forma conectados e partilhamos de idéias com o dito povão ignorante, a outra é que não somos o centro do universo, o homem não é a medida de todas as coisas,  somos mais uma espécie. Quando refletimos sobre nós e o mundo tendemos a esquecer da biologia evolutiva e da astronomia.

Os “intelectuais” são tradicionalmente vistos como pessoas que refletem sobre o todo, que todo é esse eu não sei, mas que “eles” adoram largar o todo e dar preferência ao homem pelo homem, dando a ele uma áurea santificada e transcendental, isso eu percebo claramente. Não são esses que “pensam” que de forma geral se horrorizam com esse tipo de atitude por parte das religiões?

Para esse estereótipo de pensador, não rebolar é um ato de resistência a massificação da mídia, a dominação, a imposição de gostos e blá blá. Não rebolar para enfrentar o “sistema” e a mesma coisa que não tomar coca-cola para derrubar o capitalismo. Existem várias formas de rebolar que não necessariamente com os quadris.

Não rebolar não é resistência, é vaidade, é apego com a condição do corpo e da imagem. Mais uma vez a ciência sente-se ferida nesse ponto. Já que o homem é mais uma vez colocado como ponto de referência do universo.

Tendo em vista tudo que levantei até agora, considero que rebolar é um ato de humildade e desapego. Rebolar é um ato revolucionário de reconhecimento da condição humana. Estamos todos juntos num espaço desconhecido, desde a poeira de Plutão, as estrelas de outras galáxias, passando pelo mar de Copacabana e nossas deliciosas paçoquinhas. Tudo girando. Tudo rebolando. E você ainda vem me dizer que é diferente cara pálida? Que te traz consigo, apenas consigo, a verdade universal?  Que o seu jazz é melhor que o meu carnaval?

Ah, já ia me esquecendo: “Põe a mão na cabeça que vai começar, o rebolation chon chon o rebolation”

Observações:

Reconheço que o ato de pensar e refletir é em si individual, solitário, mas reside em gramáticas de “condicionamento” que você e o individuo do vídeo a seguir compartilham: http://www.youtube.com/watch?v=5_uQSUw307Y

Não vão achar que sou dançarino profissional e saio por ai rebolando como o Carlinhos de Jesus. Tampouco que acho que todo mundo tem que rebolar para existir e ser feliz. O rebolar pode ser entendido como um conceito amplo.

Também não pensem que acredito estar totalmente fora desses estereótipos que ironizei.

Ah, eu adoro Jazz, assim como carnaval.

Guilherme Claudino – Barão de Frei-Eustáquio

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9 responses

20 05 2010
Pri

“REBOLANDO e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não…”
É isso…
E cada um que rebole como der… ou puder!
Gostei do texto, Gui! =)

20 05 2010
Rafael Senra

Foda foda foda! Estou rebolando de alegria (por dentro) ao ler outro excelente texto de vossa lavra!

Já tive uma idéia pra ilustrá-lo!

Abraço!

21 05 2010
Ane

Rebolar deveria ser algo inerente ao ser humano, no seu sentido amplo.

Ser intelectual, nerd, preocupado com o aquecimento global ou com a rumo da humanidade não pode ser um peso para os desejos, as alegrias, a leveza de sentir sem necessitar de pensamentos. Equilíbrio!

Gui, como sempre, ler seus textos me dá uma sensação muito boa.
Gostar de ti é pouco! Vou além, pro campo da admiração! 😉

Forte abraço!

21 05 2010
Guilherme

As vaias e os aplausos movem os artistas, imaginem os candidatos a artista?…

23 05 2010
Felipe Ferreira

Analisou, com excelência, e interpretou, com precisão, o estereótipo do intelectual. Ótimo texto que engrandece ainda mais o Café Bossa Nova!!!

26 05 2010
Arley Salgado

Estereótipos talvez sejam a materialização mais pura dos paradigmas, que, por sua vez, são inevitáveis.

A questão consiste não em negá-lo, mas percebê-lo, tentar compreendê-lo e utilizá-lo em nosso favor.

Pela campanha: não quebre a cara, quebre um paradigma!

O ato de rebolar é solitário, embora haja música e observadores … só você pode requebrar o seu quadril.

E haja rebolation para tanto quadril filosoficamente e intelectualmente parado!

26 05 2010
Guilherme

Dr Arley resolveu nos visitar…

Ele ja veio na para para paradinha dinha dinha do paradigma digma digma digma

29 05 2010
Guilherme Moura

Concordo em gênero. número e grau com tudo que você disse Gui. Estar dentro da “bolha social” é essencial para entendermos melhor tudo isso que se passa nesse mundo maluco. Pq uma pessoa que ama ler, ama Jazz, ama a política e as relações humanas não pode gostar do Rebolation, do futebol, das festas mais populares?
Estou contigo e não abro!!!!!!
Grande abraço!!!!!

21 06 2010
Débora Andrade

Fantástico, Gui!! Tenho passado por aqui, às vezes. E sempre me deparo com preciosidades Mas esta você foi perfeito!
Depois dessa, vou rebolar mais! E então, quando precisar defender minha pose de intelectual, passo o link deste texto!! rs

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