Para os não brasileiros

30 08 2010

Se você não gosta de carnaval não é brasileiro. Estou certo de que essa frase é limitada e abandona fatias enormes da realidade. Estou consciente de que a nacionalidade é uma construção histórica e não algo intrínseco e natural.  Sei que essa afirmação vai ser criticada. Mas mesmo assim eu repito, “se você não gosta de carnaval não é brasileiro”.

Uma frase talvez vazia. Mas autoconsciente. Toda análise lúcida precisa de reconhecer suas limitações e tudo aquilo que eliminou como fator explicativo. Toda análise tem de se fazer refutável.

Voltando ao raciocínio

Se você acha ridículo os passinhos coletivos, quase sempre criados espontaneamente, além de não ser brasileiro, tem fortes traços de individualismo.

Se você, no meio do balocabaco, no auge da avenida, fica pensando em higiene, com nojo de suor e etc, você não é brasileiro e provavelmente sofre de algum TOC.

Se você ignora os tambores africanos por considerar um instrumento menor, além de não ser brasileiro, provavelmente o seu corpo não ouve e não fala.

Se você não tem a diplomacia necessária para resolver um pequeno incidente carnavalesco como pisões no pé e empurrões, você não é brasileiro, além de ter pouquíssima chance de entrar para o Itamaraty.

Se você não gosta de virar noites e amanhecer sambando com o sol, além de não ser brasileiro é bom que procure um geriatra.

Se você não tem esportiva e briga por coisas pequenas como uma cerveja derramada e um olhar para o seu parceiro(a), você não é brasileiro e é bom que procure um veterinário.

Se você não se sente bem abraçando e cantando com pessoas que nunca viu na vida, além de não ser brasileiro, deve ter um ciclo de amigos extremamente pequeno.

Se você acha que o esfrega-esfrega do Carnaval é uma “orgia” tipicamente tupiniquim, além de não ser brasileiro, provavelmente é um falso moralista e não conhece as mulheres do norte e leste europeu.

Se você acha que o carnaval, assim como o futebol, são instrumentos da classe dominante para anestesiar o “povo”(e você não se inclui nele), você pode ter até certa razão, mas precisa refinar seus estudos em cultura política e comportamento eleitoral.

Se você gosta de tudo isso que falei, mas só se sente bem no camarote, você não é brasileiro e compra a fantasia só porque o Jornal Hoje disse que está na última moda.

Se você é brasileiro, então venha comigo que o bloco já vai passar…

Guilherme Claudino – Barão de Frei-Eustáquio

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9 responses

30 08 2010
Jay

Como bom brasileiro que sou, venho parabenizá-lo por essa visão patriótica e sútil. Enquanto a banda ainda passar e Juca ainda sambar estaremos confortáveis nos braços da alegria de ser brasileiro.

30 08 2010
Lídia

Ah, essa visão carnavalizada, carnavalesca, carnal, do Brasil e de si.
Você tem que ler muito Oswald de Andrade: Serafim Ponte Grande, Memórias Sentimentais…ali está seu grande pai.
Se eu discordar???Acaba a amizade…rsrsrsrrs
Mas respeito esse eu lírico brasílico in-consciente. E você sabe apresentar bem as ideias.

30 08 2010
Guilherme Claudino

Querida Lídia,

Se a amizade acabasse por uma discordância de idéias, o blog perderia o sentido, os textos estão aqui não só para os aplausos. Fique a vontade para criticar. Mas não vá me humilhar em público ein?..rs

Lhe adianto que a minha intenção não foi ser essencialista, ufanista, muito menos fazer o vínculo direto entre Brasil e carnaval. Não quis fazer uma visão “carnavalizada, carnavalesca” e nem evocar o dito “lírico brasílico in-consciente”

Sei que fui forte no título e na afirmação “se você não gosta de carnaval não é brasileiro”. Mas acredito que o resto do texto aponta para outras questões que residem sim na nacionalidade mas que vão para além dela, tangenciado preconceitos sociais e auto-imagens distorcidas que uma parcela dos brasileiros tem do país.

Eu revisitei um lugar-comum para cutucar certos preceitos e preconceitos. Existe uma parcela dos brasileiros que tem como esporte bater no carnaval e no dito balacobaco brasileiro. Acredito que é uma visão apaixonada, sem referências sociológicas e históricas, tendo sempre como contraponto visões distorcidas da Europa, sempre vista como comportamento frio, moderado e clássico (aqui inclui a música)……E o título e a frase de efeito foram para desfiar os ditos cults…

Por um lado estou sendo um capitalista dos mercados simbólicos culturais (vender uma imagem positiva das manifestações culturais brasileiras) e por outro estou tocando em pontos de preconceito social. O brasileiro cult treme de medo de ser associado a manifestações populares mais amplas. Não é preconceito estético e nem artístico, é social, alguns diriam de classe…Recomendo meu texto sobre o rebolation, acho que os dois tem pontos de encontro.

Obrigado pelo comentário, volte sempre com suas inteligentes contribuições

27 11 2010
nana Andrade

Nossa além do texto maravilhoso, temos uma análise dele! MUito bom!!!! vou divulgar esse texto.

31 08 2010
Lídia

Querido Gui,

Isso não é uma resposta, é outro texto!!
Pensei depois, nesse caráter crítico e irônico do seu texto, e de fato ele espanta os cults…rs, que cá entre nós hoje já começam a partilhar desse amor ao samba e manifestações culturais brasílicas.
De fato você lida com os conceitos e preconceitos, isso é muito bom vindo de alguém que é inteligente e lê muito.
Essa evocação do Oswald foi em virtude uma disciplina que fiz sobre ele, e que me fez ver o outro lado, aquilo que não vemos dele nas escolas, essa posição de um homem tão inteligente e talentoso sobre essas contradições brasileiras, de passado histórico complexo e cultura rica, e que, criticamente, soube falar disso como poucos em seus manifestos e literatura tão pouco estudados e compreendidos. Nesse sentido sim, você dialoga com ele, veja como essas questões vão permear nossas mentes por tanto e tanto tempo. Nós brasileiros, se pensarmos um pouco, vemos claramente que somos complexos, que por conta dessa opressão europeia nos cobramos mais, sem perceber, principalmente quando escrevemos, expressamos nossa opinião, enfim…
Gosto mesmo desse bate boca aqui e sinta-se à vontade para esculachar minhas opiniões.rs
No mais, o que tinha me incomodado é essa coisa de às vezes optar por não participar dessas manifestações(mesmo já tendo feito parte delas, e as defendido), por um ponto de vista que não é cult, esteja certo,é parte de uma reflexão pessoal e opcional.

31 08 2010
Guilherme Claudino

Ah sim, nem todas as escolhas são feitas pelo mesmo motivo e de fato ngm é obrigado a gostar de nada, muito menos como fator de formação de laços identitários.

Sempre bom lembrar, temos carnaval, Pelé, Ronaldo, Romário e também temos Ariano Suasuna, Jorge Amado, Machado de Assis, Vinícius, Tom Jobim, Chico, Milton, Luiz Gonzaga, Niemeyer, Portinari, Tarsila do Amaral, Cecília Meirelles, Chiquinha Gonzaga, Vila-Lobos, Cartola, Carlos Chagas, Nicolelis e por aí vai(essa parte é para agradar gregos e cults hahahaha)…Temos cardápio para agradar todos os gostos.

Veja que usei “e tmb temos” e não o velho “mas tmb” que faz o contraponto. Bater na cultura do futebol e do carnaval e de alguam forma vestir o complexo de vira-lata, abraçar o símbolo “terceiro mundo latino inferior”. Basta pensarmos o futebol na Inglaterra, lugar onde esse esporte talvez tenha mais apelo popular que o Brasil, veja um jogo da liga inglesa, parece uma religião. E olha que é a fria e rica Inglaterra.

Podemos pensar também uma série de outras festas, como a guerra de de tomate na Espanha, entre outras festas tradicionais de guerra de comida, que olhadas de forma neutra podem ser acusadas de ridiculas e até perversas, como as touradas na Espanha.

De longe, friamente analisado, quase nada não faz sentido. Se formos acioanar o olhar antropológico relativista, iremos encontrar uma série de perverções e inutilidades em todas as culturas. Isso não é um erro genético do braisleiro.

Isso pq existe ainda uma outra questão: a festa como instituição social. Tendemos a pensar que essa é uma característica apenas das tribos e das ditas sociedades inferiores. Num velho mas ainda válido clichê: “Você que tem idéias tão modernas é o mesmo homem das cavernas”

Volte sempre com suas idéias, nessa arena ngm vence e ngm perde, quem ganha é o leitor, pelo menos essa é a intenção..rs

31 08 2010
Lucas

Caro Guilherme,
completo ainda…
Se você briga com as crianças e adultos que te sujam de spray, provavelmente não é brasileiro, precisa se tratar por TOC com limpeza.

O carnaval é único, mágico, tipicamente cultural. Essa semana assisti o Filme do Noel Rosa e realmente, de acordo com seu texto, nas cenas só vi brasileiro..rs

Vale lembrar:
“…que nem nois só tem nóis”
Ah coqueiral!

31 08 2010
Guilherme Almeida de Paiva Moura

Grande Gui, achei bem interessante essa sua reflexão. Até me encaixo em uma ou outra coisa, mas o que importa é o espírito do que você quis dizer. Acho que peguei esse espírito, até pq já conversamos a respeito algumas vezes. Fora p preconceito e os falsos moralismos! E principalmente ao complexo de vira-lata. Escreva mais por aqui. Vocês todos sumiram!!!!!
Grande abraço!!!!

11 09 2010
Flávia

Vamos cutucar? Vamos provocar? Vamos desabafar?
Amei o texto. E te dou todo apoio. O importante é isso, é provocar a opinião dos outros, mesmo que todos nao concordem. E no fundo deixar um puxão de orelha, ou um aviso, um chamado de atenção. Milton, Chico, Samba e Axé faz bem pra todos e não tem porque não se misturar.

E aos carnavalescos: Simboraaaaaaaaaa!
Beijos.

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