Ao Efêmero

3 10 2010

Se eu não voltar, avise meus amigos que encontrei a resposta para a vida [se a entenderei, já é outra coisa]. Doe tudo o que era meu [se fossem minhas teriam partido comigo]. Ao meu sangue, faço questão que peça uma lembrança [aprendi com eles a contar histórias – mas se rir demais tenha certeza que é exagero!]. Ao mundo: demonstre minha gratidão e respeito [do Sul de Minas, o mar é sempre poesia]. Ao povo, divida com eles a luta contra a indiferença [você encontrará outros como nós – acredite, eles existem]. Aos nossos inimigos, não esqueça de mandá-los todos à merda [com todas as letras].

Nos encontramos no infinito.

André Paravizo





Únicos

10 05 2010

“Tem razão”. As pessoas falam alto na mesa. Cada um com sua opinião. O copo bate na madeira. Olham-se como se soubessem a resposta. Contudo, ninguém tem coragem para admitir. Não sabem o que dizem. Não sabem se estão certos. Não sabem se estão errados. “Meu Caro: por que me negastes?”. Silêncio. Trocam-se as garrafas. Trocam-se sorrisos. “Não há sentido. Não há destino: apenas aleatoriedade”. Aceite o risco, a solidão, o acaso, o finito… Aceite este vinho. Coma agora deste pão.  Afinal, a dúvida é álibi de todos. E se somos todos filhos da dúvida: somos todos irmãos.

Ironicamente, únicos; soltos pelas ruas – condenados a reinar na escuridão.

André Paravizo





Julho

17 04 2010

Inverno
Seco, embriagado inferno
Por que levastes o que era meu
O que era eterno?

André Paravizo





O trompetista

14 02 2010

Era reveillon. Na grande avenida que ligava o sul ao norte da cidade, erguida de frente para o mar, várias pessoas festejavam tipicamente a data. Música ao-vivo, boates, festas particulares, supersticiosos  aguardando a contagem – para os sete saltos sobre as ondas na praia – e outros que olhavam para o céu, à espera da queima de fogos. Tudo dentro dos conformes de mais uma virada – virada igual a todas as outras. Mas enquanto contornávamos uma das galerias daquela parte central, reparamos que um grupo começava a se formar cantando marchinhas de carnaval. No meio deles, com um repertório, que se mostraria inesgotável, apenas um trompetista harmonizava as vozes. “Ó abre alas que eu quero passar” – cantavam. E somando o coro, outros curiosos como nós se aproximavam. Ao fim, pela rua, um bloco de desconhecidos, como velhos amigos, subia colorindo o asfalto de branco. Sob um enredo antigo, adiantávamos fevereiro. O trompetista? Ia à frente, claro. Devia ter a certeza de que é sempre carnaval no Brasil.

Andre Paravizo





Efeito colateral

7 02 2010

É engraçado como nestes tempos de indiferença, qualquer gesto de atenção é considerado companheirismo, amizade e, para alguns, até amor…

André Paravizo





pique-esconde

31 01 2010

onde você esconde o seu Eu
que não morreu
mas agoniza
em algum canto
dessa pose
sem encanto
num sorriso
à meia boca
sem alma
num olhar
sem gosto
sem calma
num rosto
sem cor
sem brilho
num coração
sem amor
tão frio?

André Paravizo





Uma receita de sucesso

24 01 2010

O ano começa e com ele, todos refletem sobre os resultados alcançados ou não. Alguns, que conheço bem, gostariam muito de saírem do anonimato e se tornarem pessoas reconhecidas por conquistas rápidas – de grande retorno financeiro. Bom, aqui vai uma ajuda para 2010, aos possíveis aventureiros, especificamente, aqueles que desejam encher as estantes das livrarias:

  1. Publique um livro de auto-ajuda;
  2. Sobre o conteúdo, perceba que até momentos de decadência pessoal, quando bem trabalhados, podem ser usados como trampolim.
  3. Escreva bem. Mas não exagere. Para bons resultados, seu livro precisa ser acessível a todos.
  4. Abuse da sua capa. Lembre do poder do vermelho e as letras brancas na latinha da Coca-Cola…
  5. Invista na distribuição da obra. O retorno é proporcional ao risco que você toma.
  6. Blefe. O seu livro te levará ao sucesso e a fama – por isso, adote desde o início a postura de um escritor best-seller.
  7. Não escreva uma continuação do mesmo… Você já está rico: DEIXE-NOS EM PAZ!

Obs.: cuidado com o plágio! Acha que sou o primeiro que pensa assim? Procure no google, vai ver que há outros tentando avisar sobre esta mina de ouro. Faça referências. Você pode escrever sobre alguém já famoso, que acaba de morrer, por que não? Dica: reinvente. Como já dizia Lavoisier, “na natureza nada se cria…”.

André Paravizo