carnaval, carnaval…

12 02 2010

No primeiro dia de folia, ela saia de um bloco e ia para outro entusiasmada, os brilhos das fantasias colados no corpo, descabelada, de melindrosa, era só alegria. Subiu no ônibus tagarelando com as amigas, e durante o percurso cantavam a marchinha do bloco que terminara. Apertou a campainha do ônibus para descer e enquanto o ônibus parava, fixou os olhos no motorista: era uma mistura de Bukowski com Mick Jagger. Uma mistura estranha. Os olhos muito claros, um semblante triste, e uma cicatriz horrenda no pescoço fundo, logo abaixo do maxilar prenderam sua atenção. Foi descendo os degraus, olhando para ele, e só saltou porque as amigas a apressavam, puxando-na pela mão. Ainda deu tempo de agradecê-lo, num meio sorriso, obrigada. Ele baixou a cabeça, agradecendo.

A noite continuava. Na rua, belos corpos desfilavam em poucas roupas. Estava na hora dela parar com esta mania de se sentir atraída por figuras estranhas.

Maria





curta metragem

13 10 2009

… e depois permaneceram por um tempo ali, largados, semi-nus, semi-vestidos, que na intimidade condizente com a relação que tinham não havia lugar para corpos entrelaçados. Ele passeava com os dedos na linha de pele que ficava à mostra entre a camiseta e seu sexo vestido. Forçando mais para baixo o elástico, sorriu e disse a ela: “você também não é muito adepta de depilações radicais”. Ela não conteve a risada. Ele continuou: “eu gosto”.

Maria





anacrônica ansiedade

8 09 2009

Esfregava as mãos vigorosamente sobre a calça jeans numa tentativa inútil de amenizar o frio úmido daquela varanda do bar. Falava elétrica, mulher de  idéias. Segurava o cigarro do maço que seria abandonado quase cheio sobre a mesa no final da noite, mas a cerveja era bebida lentamente. Fazia de tudo para esconder o nervosismo do tempo que se esgotava desde que recebeu uma ligação do banco de sêmen. Dois dias era o que tinha para decidir engravidar, manter congelado o sêmen do marido morto por mais um ano, ou descartá-lo.

Não fumava mas não se importava com o cigarro da amiga. Gostava mesmo era do chopp dose dupla das terças feiras. O cachorro enroscava-se aos seus pés, entediado com o programa noturno. Era a mais alegre dali, piadista, irônica. Naquela noite, era disfarce. O bichinho olhando para ela com as pálpebras caídas a fazia lembrar que dali a dois dias  encontraria o ex marido, que viria buscá-lo.

Nem gostava tanto assim de beber. Preferia a convivência, as luzes da noite. Ora falava muito, ora nada falava. Olhava para as unhas, curtas maltratadas e sentia-se satisfeita por ter passado uma semana tão ocupada. Em cabeça ocupada não há espaço para idéias más. Só que seu coração batia acelerado, desta vez de tristeza. Eram apenas dois dias e iria encontrá-lo. Dizer que sabia a verdade? Não sabia o que fazer.

Voz baixa, mãos grandes. Um chá gelado, por favor. Era a mais nova da mesa. Ainda pensava se valeria a pena lutar pela renovação de seu contrato ou não: era o preço por uma experiência, mas não lhe enchia os olhos. Queria ir além. Mal sabia que dois dias depois uma vida estaria dentro dela e a sua própria nunca mais seria a mesma.

Para ela, nada gelado. Nada com álcool. O pastel daqui é bom? Sentia muito frio. Se vestia com o bom e o melhor, sempre o mesmo perfume, o cabelo curto era moderno. Tinha um bom emprego e no geral estava feliz. Bem, isso se não fosse o senhorio pedir-lhe o apartamento que acabara de reformar. Faltavam dois dias para sair e ainda não tinha arranjado outro.

Bebia como toda mulher do interior de Minas. Mas só bebia quando o marido vinha buscá-la, pois tinha total e completo senso de responsabilidade em relação a beber e dirigir. Era uma noite dessas. Sempre deslumbrante em sua beleza singela. Mas encimando o sorriso, um olhar quase desesperado. Em dois dias iria rever a família, e junto, as cobranças por um casamento de 12 anos sem filhos.

Era atenta e mal mostrava os dentes. Porém simpática. Rápida, limpa, inteligente. Com alguns até desenvolvia uma conversa mais amigável. Naquele dia pôde parar e observar aquela mesa de mulheres falando alto, muito alto, rindo. Alguma confraternização? Não se deu ao luxo de especular mais. O cliente da mesa ao lado já a chamava. Dispensou-lhe a atenção de sempre. Dois dias e pediria demissão pois, finalmente, conseguira montar o seu salão de beleza.

Maria





A Sobremesa

21 07 2009

Era uma tarde de verão, daquelas quentes em que o sol tem preguiça de ir embora, e do nada apareceu a prima de uma amiga querida, que resolveu subir a serra para dar um alô. Dobrados de fome, agravada pelo sol e pela cerveja, ‘resolvemos’ – uma turma de umas oito pessoas, voto vencido: o meu – almoçar num restaurante de paellas, uma certa estravagância, não exatamente em homenagem à prima, que mal comeu, mas ao clima de alegria que se instalou naquela tarde após sua chegada.

O lugar tem uma cara bem mediterrânea, fica numa colina, e o sol nos fez companhia ainda por um bom tempo. Apesar do clima alegre, excelentes companhias, flertes, ciúmes, sangria espanhola rolando solta, frivolidades, e até um baile improvisado, eu sabia que ia ter que me garantir na sobremesa: as paellas envolviam, é claro, camarões, mariscos, lulas, e tudo mais que vem do mar e eu não como, e os outros pratos eram coelho, cordeiro, e outras esquisitices para as quais torci o nariz.

Ao percorrer o cardápio com os olhos, rezava por um prato de massa enumerado naquela parte ‘pratos infantis’, mas não encontrei. Aquele não era definitivamente um restaurante para crianças. Percebendo minha má vontade que se encaminhava para uma desistência ou uma salada simples, um membro do G-8 pede ao dono do restaurante, que a esta altura já estava sentado em nossa mesa: “faz um bife com ovo para a Maria?”. Que vergonha! Preferia não ter pedido nada a alguém ter dito isso por mim num restaurante de paellas! O dono, pessoa especialíssima, foi demasiadamente gentil e ainda brincou comigo, para diminuir meu constrangimento. Disse afinal que faria o filé. Dispensei o ovo, ele ofereceu fritas. Segue a tarde, segue a sangria, segue o baile.

Sobremesa. Ufa! Finalmente algo espanhol! Uns pediram sorvete, outros, dispensaram, pediram café. “Maria, e você?” Me traga uma ‘crema a catalana’. “E você delator, deseja alguma coisa?” Não, não, só um café. Eu dou um ‘tapa’ na ‘catalana’ da Maria.

A mesa toda ouviu o comentário com malícia e nos desmontamos em risadas. Tarde inesquecível.

Maria





sabedoria etílica (para aqueles que acreditam que “in pinga, veritas”)

30 06 2009

Outro dia saí de casa pra trabalhar, vinte pras oito da noite, e sentei no banco do ponto do ônibus, que fica em frente a um cruzamento onde uma das ruas é de mão única e, com considerável freqüência, vemos motoristas desavisados (sim, porque não há placas), entrar por ali na contra-mão. Neste dia, logo depois, sentou ao meu lado um senhor, decentemente vestido, mas alcoolicamente fedido. Ficou jogando palavras ao vento como os que padecem do vício fazem. Sim, ele era alcoólatra, tendo, inclusive, afirmado isso: “tenho duas filhas, uma médica e uma fisioterapeuta; e olha que sou alcoólatra”. No instante seguinte, mais um desavisado entra na contramão. Eu dou uma levantada no corpo e levo a mão a cabeça, num susto. Nisto, o senhor exclama: “é isso, é isso que dá! ficar pensando no ontem, dá nisso. sabe, menina, porque os acidentes acontecem? porque as pessoas ficam pensando no ontem. ora, o ontem já passou, não temos que pensar no ontem. temos que colocar a atenção no hoje, que é o que está acontecendo, e no futuro que acontecerá daqui a pouco. Quem pensa no ontem não vive, e acaba fazendo besteira.” Tive que agüentar mais umas ou outras divagações daquela figura, até que chegou o ônibus. Mas aquelas suas palavras fizeram total sentido para mim.

Maria





E a bula diz: use-a como quiser.

16 06 2009

O que pertence ao público e o que pertence ao privado, nesse novo milênio, está difícil de distinguir. Nem sempre essas esferas, pública e privada, contiveram os mesmos elementos ao longo da história, e períodos de transição como, ao meu ver, o que se vive hoje, são um tanto confusos. Com o advento da internet e a rapidez dos meios de comunicação, muitos conceitos terão que ser revistos. Pra vocês verem a importância da coisa, o tal vídeo da Cicarelli, por exemplo, foi objeto de algumas aulas nas disciplinas Direitos Fundamentais e Direitos da Personalidade no meu mestrado. Afinal, o que a Cicarelli sofreu foi ou não violação da sua intimidade?

Era discussão e opinião que não acabava mais. Com uma coisa todos concordaram: a intimidade é sua e você faz com ela o que bem entender. E assim nos expomos não só em praias, mas em sites de relacionamentos, álbuns digitais, blogs e comentários pela rede afora. Não reclame depois, cara pálida. Participar ou não dessas brincadeiras sombrias, nefastas, sinistras, é pura e simplesmente responsabilidade sua. E as opiniões que as pessoas têm sobre você no seu blog, derivadas das coisas que você escreve, de certa forma, também são.

A título de curiosidade (altamente nerd, mas vamos em frente), os druidas, e a sociedade celta, não faziam o uso da escrita. Para eles a escritura estava carregada de magia e apenas em casos excepcionais poderia ser utilizada. A forma escrita fixava na matéria, de forma definitiva, uma idéia ou um pensamento; matava o que deveria ser vivo ou o que deveria se reviver eternamente. Obviamente eu não sugiro que vivamos como os celtas (o que não é má idéia, principalmente se você é mulher; e se quiser saber mais sobre isso corra atrás e entenderá o que estou dizendo!) mas, o que interessa a presente reflexão é: o que você escreve, ou não, fica. Fica, principalmente, na opinião que os outros têm sobre você. Pra mim isso importa. Pra você, não sei. Mas se não importasse, talvez você escrevesse e condenasse seus textos ao buraco negro do seu computador. Se escreve e publica, não é por acaso. É porque quer se expor. É porque quer exercer este ácido desejo humano de se expor. Ou de expor um alguém que gostaria de ser, o que não é vergonhoso nem ilícito, mas pode gerar conseqüências se você não é um personagem literário.

O outro lado – o do leitor, mostra a realidade de que nem todo mundo, muito pelo contrário, vai encarar seu blog como mera literatura onde você é o personagem principal, onde expõe opiniões, gestos e atitudes que, no fundo, no fundo, não são os seus. Criar um personagem para expor o que se gostaria de ser é uma boa idéia. Mas construir um personagem sobre si mesmo, eu já não sei. Isso, cada um é que vai dizer. Assim, volta-se ao início do que foi dito aqui: a intimidade é sua, use-a como quiser.

Obs: as informações sobre os celtas foram retiradas do livro “Uma luz sobre Avallon”, pesquisa feita pela professora Maria Nazareth Alvim de Barros, editado pela Mercuryo.

Maria





…já disseram um é pouco, dois é bom, três é demais…

2 06 2009

O Zé? Ah, a última dele foi que estava namorando duas mulheres. Coisa do Zé. Acho que todo homem sonha com essa coisa de ter mais de uma namorada, eu mesmo já tive vontade, confesso, mas daí a levar a empreitada a cabo, cara, é uma operação um tanto complexa. Ter duas namoradas não é a mesma coisa do que ter uma oficial e uma outra de vez em quando. Segundo o que o Zé contou, eram duas namoradas mesmo, as duas frequentando a casa, as rodas de amigos, a família. Só não frequentavam uma a outra, pelo que parece, mas aí também já seria um pouco demais… e eu acho até que demorou a dar confusão. Quando o Zé me contou, eu bem que avisei a ele, meu irmão, uma hora elas vão cobrar a conta, porque é claro que elas sabem, não se passa a perna em diabo. Mas ele estava gostando da brincadeira. E quem não gostaria? Há nesta vida algo mais motivador para um homem do que ser desejado e disputado por duas mulheres? Não mesmo. E o tempo foi passando com namorada A e namorada B cada vez mais integradas com família, amigos, mulheres dos amigos, ex-mulheres dos amigos… até que um dia…  informações atravessadas nos vai-e-véns de conversas femininas fizeram a namorada A querer pular fora do polígono. Houve choro e vela. Dizem as más línguas que até ameaça. A namorada A saiu batendo a porta da casa do Zé jurando nunca mais voltar. Primeiro o Zé sentiu um vazio. Depois, um certo alívio, afinal, ainda tinha uma para garantir. Três dias depois, ligou pra namorada B e a levou pra jantar. Ela estava radiante, já sabendo que a namorada A tinha ido embora repleta de razão, e viu sua oportunidade de se tornar a namorada U de única. Mas o Zé não viu nela a mesma graça. Ela percebeu. Ao deixá-la em casa disse a ela que não dava mais. Passou um mês pensando na namorada A, até que tomou coragem e ligou. Passaram um fim de semana inteiro na cama. Mas para o Zé, faltava algo.  Segunda-feira, quando ela foi embora, ele ligou para a namorada B. Tinham terminado numa boa, quase que com um “até logo”, e o Zé acreditou que não seria difícil retomar do ponto onde terminaram. Mas já era tarde… ela já estava com outro. Sentiu um aperto no peito. Não era bem dor, mas frustração. Certamente a namorada A poderia assumir o posto de namorada U, se ele quisesse. Ah… se fosse isso que ele realmente quisesse. Mas não era. Sua paixão não era por uma ou por outra, nem pelas duas. Era por si mesmo. Era a disputa entre as duas que o mantinha bem, feliz, realizado. É, o Zé continua o mesmo. Cheio de história pra contar. Mas um dia ele toma jeito, ah se toma!

Maria