Risco vizinho

25 01 2010

Segundo relato citado pelos digníssimos senhores E. Zakuska e F. Pereira.

Aquele garoto escalou o muro da casa de seu amigo para espionar o que poderia descobrir no território vizinho, já que a curiosidade o arrebatara fortemente, fazendo-o incidir naquele ato, enquanto seu amigo, filho do proprietário da casa, o observava logo abaixo, descrente de que ele pudesse obter qualquer informação com o mínimo valor. Quando finalmente logrou alcançar tal intento, podendo deslumbrar o quintal da casa ao lado, o rapaz não pôde conter o medo, medo acometido por divisar algo que não desejava, medo que fez seus olhos embotarem-se de um horror perceptível e, francamente, medonho. Desceu então dali, num pulo só, apressado como uma dessas lagartixas que correm rápido por paredes verticais, e agarrou com força os ombros de seu colega atônito, completamente desnorteado pela palidez cadavérica que o terror proporcionara à face de seu outrora corado amigo. O rapaz tremia compulsivamente, as lágrimas brotavam aos borbotões de seus olhos estatelados, escorrendo como bicas, o queixo caído com um fio de baba descendo pelo canto dos lábios. Ia falar, mas não falou de imediato. Passados alguns segundos gritou, histérico: “há lá um ser alvo como as neves mortais dos gélidos pólos! Seus olhos perversos são indescritivelmente vermelhos como a cor do mais pervertido dos pecados da carne! Suas orelhas, meu Deus!, suas orelhas pendem compridas como adagas prontas a esfacelar corpos justos, e seu nariz bizarro se eleva e se abaixa num movimento ritmicamente frenético, hipnoticamente impuro! Queria eu ser cego para não ter que enfrentar tal visão imunda!”. Posto isso correu desesperado de encontro ao portão, se jogando para a rua e, dizem, esbarrando e derrubando alguns transeuntes incautos que perambulavam pela via naquele momento – uma senhora até ralou um de seus joelhos com a queda proporcionada pelo encontrão com o rapaz apavorado.

Seu amigo ficara ali, estático, olhando aflito para o vazio à sua frente. A respiração cessada por alguns instantes, um desconforto lastimável percorria como um raio a extensão de seu corpo. Seu cérebro precisou de tempo para processar tão nauseabunda informação. Com tal processo findo chegou um enjôo terrível em seu estômago, que o fez querer regurgitar, só não o fez porque não havia nada lá para ser colocado para fora – esperava pelo almoço. Mas seu estômago revirou-se, de qualquer forma. Veio também a constatação de que dormitara durante anos ao lado de criatura nefanda, convivera com ela ignorante dos riscos que corria, e que os seus corriam. Não reuniu coragem para divisar com os próprios olhos tal besta, pelo contrário, pôs-se na direção oposta, rumo ao interior da casa, com andar cambaleante.

Pouco tempo depois alcançou a cozinha da construção, onde sua mãe estava a fritar algumas partes de frangos para o almoço da família, imersa num odor forte de fritura e estalos de óleo quente. O menino entrou e parou. Ficou prostrado em estado de choque, com a respiração chiada e costas arqueadas, o olhar vidrado no nada manchado do teto. Quando a mãe notou a cena de seu filho terrificado, exigiu saber imediatamente o que ocorrera, completamente aflita. O rapaz tomou fôlego e desandou a bradar sem piedade: “há no vizinho uma criatura branca como a cor espectral do espírito maligno e infame! Cada olho seu ostenta um vermelho detestável, tal qual o sangue jorrado de feridas abertas em corpos inocentes! Suas grandes orelhas são as mais pérfidas das coisas existentes e inexistentes e seu nariz possui o mais degenerado dos trejeitos! Feliz é o cego que não pode divisar horrendo ser!”.

Após ouvir tais palavras, a mãe sentiu vertigens. Apoiou suas mãos na pia para não sofrer uma queda avantajada, desastrosa e perigosa. Empalideceu de imediato, o coração descompassou seu ritmo normal e ela enxergou pequenas luzes voando para lá e para cá diante de si. Tornou-se um caco, um restolho de gente. Seu cérebro começou a dar lampejos de questionamentos a respeito do depoimento de seu querido filho: como pudera permanecer tão inocente a respeito da existência de torpe criatura às portas de seu lar tão regrado? Como nunca se deu conta do risco que ela e os seus corriam ante profanador assombro? Merecia um castigo muito bem aplicado, com certeza!

Então o pai chegou à cozinha após breve corrida, que o fez arquejar apoiando as mãos em seus joelhos para poder respirar melhor. O cansaço fora produzido por um estilo de vida civilizado e sedentário. Nunca pensava em se exercitar ou correr, só o fez por ouvir gritos oriundos daquele cômodo da casa, correndo em auxílio. Notou, enfim, sua mulher e seu filho num estado deplorável, questionando imediatamente o que se passara ali. Foi sua esposa que tomou a palavra: “o território vizinho é viveiro de uma blasfêmia animalesca clara como um leite promíscuo e envenenado! Os olhos da citada criatura são desmoralizadamente vermelhos como os esquálidos demônios que ardem no mármore dos infernos! Suas orelhas são uma perversão à parte: grandes como chifres, símbolos de tudo o que há de mal! E seu nariz vibra levantando-se e abaixando-se numa dança diabólica e corrompida! A cegueira de um cego passa a ser uma benção pois o impede de visualizar tão malfeitora besta!”.

Agora era a vez do homem sentir vertigens, e as vertigens aumentaram e aumentaram, fazendo-o puxar uma cadeira para se sentar. Sentou-se e respirou pausadamente, até conseguir retomar o controle sobre os próprios movimentos, que então eram acometidos por violentos espasmos. Perguntou-se ardorosamente como permanecera tanto tempo alheio à vil existência de indecente forma ameaçadoramente próxima. Se amaldiçoou por sua completa incompetência de manter afastada tal praga de Babilônia. Levantou seus olhos e divisou sua mulher e seu filho que, inertes, esperavam ardorosamente alguma providência de sua parte.

O homem tomou fôlego e resolveu agir: tinha guardado em lugar secreto uma pistola calibre trinta e oito, velha de muitos anos mas que devia servir para seu propósito libertador. Pegou a arma em suas mãos e a carregou. Após isso ajoelhou-se, fez uma oração e o sinal da cruz. Estava prestes a servir a humanidade e livrá-la de um mal gigantesco, o que acalmou momentaneamente seu coração. Levantou-se, seguindo para o seu nobre desígnio. Se morreria naquele ato não podia saber, mas levaria a besta-fera junto, certamente!

Sua esposa e seu filho o acompanhavam reservando uma distância segura. Ostentavam aura de incerteza desesperadora. Sentiam medo, um grande medo, mas sabiam que aquele homem era o instrumento de tudo o que é bom contra tudo o que é mal, e esta certeza faziam-nos vibrar internamente de orgulho. Viram, então, seu marido e seu pai trepar no muro e, sem mirar, nem mesmo ver nada, levantar o braço e disparar na direção do quintal vizinho. Estampido. Silêncio. Os três ficaram se olhando, angustiados.

Passados alguns segundos, o homem ergueu-se medroso e vagarosamente para conferir se seu ato tinha resultado em glória ou desgraça. Já que não era cego, um olho após o outro pôde visualizar que conseguira atingir seu intento com sucesso, pois aquele ser de pêlos brancos, olhos vermelhos, orelhas compridas e narinas com movimento respiratório cessado jazia no chão com um buraco de bala no alto da cabeça, donde vazava sangue que já formava uma pequena poça por ali.

O animal estava morto. Pobre coelho.

Egon Zakuska

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Apenas ela e eu

18 06 2009

Milhões de faces, milhões delas, projetando-se de milhões de cabeças que se erguem de milhões de tórax. O mesmo número de abdomens e quatro vezes mais membros, entre braços e pernas, em média. O conjunto de tudo isso forma milhões de seres humanos, que rastejam sobre milhares de ruas feitas de asfalto sujo, frio, úmido. Dessas ruas se levantam milhares de prédios de concreto cinza, que arranham as incontáveis nuvens em alturas inimagináveis, lá em cima, da mesma melancolia cinzenta. Melancolia. Essa massa de rostos, tórax, abdomens e membros vai de encontro a destinos cujo os quais ignoro, cujo os quais não quero conhecer. Não é do meu interesse se vão ou vêm, para lá ou para cá, o que me importa? Um cataclismo arrasou o mundo e o fez desmoronar por completo: o mundo deixou de existir. Isso é o que importa.

Restam, então, apenas ela e eu. Apenas nós dois, entre a multidão. Mas não a quero ao meu lado, não a quero comigo, não a desejo. Quero despistá-la, livrar-me dela. Tento alguma manobra, entro em algum beco, enveredo para algum pensamento… tudo em vão. Minha companheira obstinada, você jamais falha; cá está, me assombrando, cumprindo com toda a competência que lhe cabe o que se propõe a fazer, desde sempre e para sempre.

Um alemão não saberia nomeá-la, tão pouco um russo. Nem um chinês saberia. Nenhum dos milhares de povos africanos ou do oceano pacífico a batizou. Um tailandês ficaria calado, assim como um turco ou um canadense. Nem mesmo um inglês. O restante do mundo se calaria, mas a conhecem tão bem quanto eu, quanto você. A única diferença é que nós sabemos a sua identidade e a nomeamos muito bem. Dizem que sofremos ainda mais sua presença por saber nomeá-la. Azar nosso.

Sei seu nome, cá ela está. Não haveria nome mais perfeito. Sinto o gosto amargo na boca, o estômago se remoendo, a aflição da ausência. Enquanto caminho por um mundo destruído, entre milhões de faces apáticas e desinteressantes, ela me acompanha. Restam apenas ela e eu em meio ao vazio pós-cataclismo. Nostalgia. Flashs de lembranças, perda, luto, distância. Culpa. Ela jamais falha.

Insiste em me saudar e se fazer notar. Questão de saúde, há dor. Posso crer que é ela quem me desperta toda manhã, pois é a primeira a se mostrar para mim. Está também em meus sonhos, fazendo parte de cada um deles. Sensação de ausência. Tristeza. Daltonismo da alma, o cinza que me envolve. Vida monocromática. Quero despistá-la, sou um incompetente. Preciso despistá-la, falho em cada um das minhas tentativas.

Solitudine, solitudo, solus, só, solidão. Solitate, solitarius, solitário. Salute, saúde, salutare, saludar, saudar. Saudade, eis o seu nome. Minha companheira, aquela que se faz presente pela ausência, aquela que nós, e só nós, de herança lusa, sabemos sua identidade, e por isso a sofremos ainda mais.

Caminho entre milhões de faces, em meio a milhares de prédios, em qualquer uma das milhares de ruas desse lugar. Estou só, ela comigo. O cataclismo que destruiu o mundo trouxe o vazio que toma a minha alma, alma daltônica. É nesse vazio que ela fixa residência, e de lá manda seu recado ininterrupto. Dor que não cessa. Luto. Fim. Na aflição da ausência ela saúda a sua presença.

Perda do essencial, da inspiração, das cores, do sentido. Término. Culpa. Lágrimas. O mundo ruiu. Milhões de faces que não me dizem nada, absolutamente nada. Estou só. Distância. Eu a perdi, a saudade ocupou seu lugar.

Egon Zakuska