Dias e noites

2 10 2009

 

O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.

Mario Quintana 

 

Hora de acordar… Jaula para o relógio! O meu despertador pensa que é um cachorrinho. Mas é selvagem e nunca conseguirei domesticá-lo. Eu só não ri deste meu primeiro pensamento ao acordar, porque estava com tanta preguiça em minha cama quentinha, que simplesmente meus lábios se recusaram a se mover. Geralmente o primeiro pensamento ao ouvir o rugido do inimigo era: Mais um dia! Mas hoje este foi o segundo!

Cada um com seu Sveglia, Clarisse!

Todos os dias acordo…lamento ter que acordar tão cedo e sobretudo, ter que trabalhar. Gosto do meu trabalho, mas sinceramente prefiro a cama. Após enjaular o despertador, posso esperar mais cinco minutos. Ou quem sabe, mais cinco. Amor, você vai chegar atrasada, diz todos os dias o homem ao meu lado. Então, me levanto cheia de preguiça, com os olhos ainda pesados. Ai, hoje podia tanto ser sábado!Mas vamos lá! BANHO! ROUPA! SAPATOS! CHÁ! PÃO COM REQUEIJÃO! BOLACHA DE CHOCOLATE! CARRO! BEIJINHO! BOM TRABALHO! EU TE AMO! As cenas são praticamente as mesmas e se repetem todos os dias. No trabalho, mais cenas repetidas.  E quando vem a noite… CANSAÇO! COMIDA! BANHO! CAMISOLA! CAMA! BEIJINHO! EU TE AMO! É assim até chegar a sexta-feira.

A sexta é quase mágica com a promessa de liberdade e a despedida do cansaço.

O sábado é meu! No sábado aquele bicho selvagem está enjaulado! As cenas são diferentes. A minha respiração é diferente. Os beijos e o “eu te amo” são bem diferentes. Duram o tempo que a gente quiser. No domingo lembro que a jaula logo será destrancada e o dia inteiro tem gosto de saudade!

Hora de dormir… Jaula para o relógio, pelo amor de Deus! O meu despertador pensa que é um gatinho mansinho. Embora saiba que ele é selvagem, tenho a inútil esperança de que conseguirei amansar a fera um dia.  Bem, isso não tem a menor importância enquanto houver eu te amo todos os dias.

Manu Quelis

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Quase, Nelson…

25 09 2009

Sete e meia da noite. Anita já estava se preparando pra dormir. Colocara o seu pijama de flanela e fizera um chá bem quente. Não que estivesse frio naquele dia. Muito pelo contrário, afinal de contas era verão. Mas Anita queria aconchego. Ligou o ar condicionado no máximo. Queria que aquela semana terminasse logo. Tomou seu chá na cama e colocou a caneca em cima do criado. Cobriu-se impaciente na esperança de que o sono chegasse logo. Os olhos se fecharam… Mas mil e uma cenas indesejadas começavam a surgir na sua cabeça! Que merda! Mais uma noite daquelas! Era duro perder alguém que se amava tanto!

Tentava pensar em outras coisas, mas ficava remoendo as lembranças de Clara brincando com as suas bonecas quando eram crianças. Clara era sua prima e melhor amiga. Virava e revirava no colchão. As lembranças não davam sossego. Nunca foi tão próxima assim de alguém na vida. Tinham a mesma idade e cresceram juntas. Apesar de serem tão diferentes uma da outra, elas eram unha e carne. Na adolescência, saíam juntas. A Clara era a garota séria, estudiosa. Apesar de linda, era muito tímida e sempre pedia  ajuda à Anita, quando o assunto era garotos.  Ficar! Clara não curtia esse barato, não! E quando isso acontecia, era namoro na certa! Lembrava de como ria da prima: “Clarinha! Você vai morrer virgem desse jeito! Coitados dos caras que você pega!”. Anita já previa a reprimenda da prima: “Pega? Eu odeio esse seu jeito de falar! Eu não pego, eu namoro!” – e as duas caíam na gargalhada! Curtiam juntas. Iam e voltavam das festas… Bons tempos!

Mas, cada uma tinha, agora, o seu trabalho… a sua vida. Contudo, a cumplicidade não mudara em nada. Ou quase nada! Quantas vezes ia ter que ajeitar essa porcaria de travesseiro! A Campainha tocou. Quem seria? Não esperava e não queria ver ninguém, mas levantou da cama e foi ver quem era.

– Ah, você!

– Não tá muito cedo pra você dormir? – disse o visitante olhando para o pijama de Anita. Era o João! O grande amor da sua vida. O único cara com quem conseguiu visualizar um futuro, casa, filhos…

– O que você quer? Eu não quero ver nem falar com ninguém!

– Eu estava preocupado!

– É mesmo?

– A Clara tem te ligado durante toda essa semana… Deixou recados, mas você não atende o telefone.

– Volta pra lá e diz pra ela continuar tentando. Quem sabe uma hora ela consegue. Deve ser difícil fazer ligação do mundo dos mortos. Pra mim ela faleceu há uma semana.

João forçou a porta e sentou no sofá.

– Eu sei que está sendo difícil pra você. Mas não foi fácil pra nós. Não planejamos nada. Aconteceu. Eu amo a sua prima. E ela me ama: ponto.

– Ótimo. Essa parte eu entendi. Eu só não entendi o que você tá fazendo aqui.

– Nunca traímos você. A Clara tem chorado muito e a coisa mais importante, no mundo, pra ela, é manter a sua amizade. Eu sei que você tá magoada, mas…

– MAIS IMPORTANTE O CARALHO! VOCÊS ME APUNHALARAM PELAS COSTAS!

– Sem drama, Anita… Isso não é verdade. Já te explicamos como as coisas aconteceram ao acaso e como foi uma decisão difícil pra mim e pra Clara. Ela tentou evitar e eu também! Por você, pois é uma irmã pra ela.

– Irmã? – riu Anita, com sarcasmo. – Acho que eu não tenho vocação pra Lúcia. E apesar de gostar de Nelson Rodrigues, não vou encarnar a irmã traída, se é isso que vocês estão pensando. Não tenho pensamentos homicidas em relação a sua Clarinha, pode ficar tranquilo. Mesmo porque pra mim ela nunca existiu. A amiga que eu tinha era uma completa farsa. Não espere que eu aja como se nada tivesse acontecido e vá de madrinha no casamento de vocês.

– Anita, eu sinto muito que você tenha ficado tão magoada. No fundo você sabia que nós dois nunca daríamos certo. Você deixou claro pra mim que não tava a fim de casar agora. E você passava mais tempo viajando a trabalho, do que comigo. Eu sempre senti que sua prioridade não era ficar comigo. Você viajava tanto e eu acabava…

– Trepando com a minha prima enquanto eu tava fora! – interrompeu Anita

– Não é verdade. É que com o tempo eu descobri  que a Clara e eu tínhamos muitas afinidades. Eu te amava, Anita, mas eu comecei a amar a sua prima. E fiz minha escolha.

Os olhos de Anita se encheram de água. Era um golpe forte.

– Posso te fazer um pedido? – disse com a voz embargada.

Ele aquiesceu.

– Fica essa noite comigo… – e foi desabotoando o pijama.

João ficou com a boca seca. Perturbado. Parecia uma presa pronta pra ser devorada. Aquele frio, do ar condicionado, deixava a pele de Anita arrepiada. O cabelo dela estava solto. Ela se aproximava e ele não conseguia se mover… O celular no bolso dele tocou. Era Clara. Ela sabia. Ele não atendeu, mas enquanto o telefone tocava, disse olhando nos olhos de Anita em tom decidido.

– Isso nunca mais vai se repetir!

Anita ficou muda. Dava pra ver no seu rosto a confusão. O que fora aquilo? Ela não tivera a intenção. Ao menos, não uma intenção racional. Para João era claramente uma questão de instinto.  Mas para ela parecia uma ação natural e totalmente involuntária. Como se ela quisesse testar se ainda tinha algum poder sobre ele e sentir menos abandonada. Mas o que aconteceria? Nunca saberia. Sorriu. Se o telefone não tocasse, ela teria ido até o fim. E, de repente, sentiu um calafrio ao lembrar de Clara.  Ainda bem que o telefone tocara. Não chegou a fazer nada do que pudesse se arrepender mais tarde e estava aliviada.  A hesitação de João fez com que ela se sentisse vingada e, ao mesmo tempo, envergonhada pelo que tinha feito. Quando aquele telefone tocou, ela teve a certeza de que nunca teria dado certo entre ela e João.

– É melhor eu ir. – disse João sentindo-se irritado com aquele sorriso.

– É melhor sim.

Aquele sorriso na boca dela o incomodou. Mas o pior foi aquela quase cena de Nelson Rodrigues. Ele saiu batendo a porta atrás de si, querendo se ver longe dali o mais rápido possível. Anita continuou estática na sala  – sorrindo,  com seu pijama ainda desabotoado. Tinha plena consciência que tinha um motivo para ser perdoada, e, então, pôde perdoar. Desta vez, Nelson ficaria desapontado.

Manu Quelis





No sétimo dia

24 05 2009

Na sexta passada ela bateu na minha porta com sete malas, olhos inchados e olheiras profundas dizendo que nunca mais voltaria à casa dos pais.

– O que aconteceu? Descobriram?

– Aquele veado francês apareceu lá em casa dando escândalo! Contou pros meus pais…

Eu bem que tinha avisado. É muito arriscado morar com os pais quando se tem vida dupla.

– E o seu noivo?

– Acabou! Ele me despreza. Disse que tinha nojo de mim. Mas quer saber? Eu fiz a escolha certa.

– Claro que sim, você é como eu. Sabe curtir a vida e o dinheiro. E o que puta vende, por que tem de sobra, é prazer…

– Putas até morrer! – brindamos.

E caímos na risada e no vinho, após termos decidido dividir o “apê” e alguns clientes. No entanto, notei que a Lu não conseguia disfarçar a sua tristesse. Romper com a família e o namorado era uma barra pesada demais – até para pessoas como nós.

Quando entrei nessa vida, senti que morria e renascia como outra pessoa. Mas o meu caso era bem diferente do caso da Lu. Talvez ela possa estar experimentando a morte da antiga Luísa, só agora – agora, que as pessoas que ela amava, sabiam.

– Acho que não tem mais volta, não é?

A minha amiga não estava a fim de faculdade… Desmarcou clientes… Então, terça, antes de sair, eu a vi em frente à TV, tomando sorvete de creme. Parecia um pouco melhor. Bem, eu precisava ir pro night club.

– Lu, tô indo nessa! Te cuida, hein?

Não vi a minha amiga na quarta; na quinta… Estava começando a me preocupar. E se ela tivesse feito alguma besteira? Não. Ela não era desse tipo.

Sexta, de noite, a Luísa chegou estonteante, com um vestido novo vermelho. Fiquei aliviada ao ver que minha amiga estava bem. E, claro, mais aliviada ainda, por saber que ela tinha voltado ao trabalho. Isso garantiria o nosso aluguel.

– Tenho um cliente especial. Tava me preparando… Olha o que eu ganhei! – disse, apontando para o seu vestido Hercovitch.

– Vai acompanhar algum mega empresário?

– Não. Paga melhor!

– Quem?

– Meu ex noivo!

Manu Quelis





Laetitia*

15 05 2009

Céu nublado e CHUVA! Vejo uma cidade cinza, que resiste à primavera e aos dias de sol. CHUVA em um mundo descolorido cheio de concreto, prédios que não se contentam em somente arranhar o céu cinza. CHUVA de fumaça de carros e cigarros… Enxurrada! CHUVA de pessoas descoloridas na rua. Elas têm tanta pressa! Tantas preocupações e afazeres… Cada uma delas enclausurada em seu mundo particular. Algumas transbordam estresse e irritação – outras, simplesmente cansaço. Enquanto observava todas as pessoas a minha volta no ônibus cheio, perguntei-me quantas dessas pessoas percebiam que estavam em um ciclo vicioso. Todos os dias as pessoas cinzas faziam o mesmo trajeto e a mesma rotina. Um dia, porém, conversei com uma pessoa que tinha uma cor diferente.

– Boa noite! – disse uma garota ao se sentar do meu lado no ônibus.

Retribuí laconicamente o seu “boa noite”, sem sequer olhar para ela.

– Esse ônibus é sempre cheio assim? Que sorte que vagou este assento! – e continuou a garota. – Que temporal, hein?

Ela era insistente e eu lamentei o fato do meu mp3 player estar estragado. Seria perfeito colocar os fones de ouvido e deixar a minha mente vagar…

– Pois é. – respondi sem vontade.

– Disseram que esta cidade sempre pára quando chove. Dá pra ver que é verdade.

– É.

– Mas eu até gosto de chuva. Acho bonito ver a água caindo. E o dia e a noite fica mais aconchegante, não acha?

– Desculpe, o que disse?

– Acho que estou te incomodando com as minhas tagarelices, né? É que eu tenho a mania de… Deixa pra lá!

– Não. Tudo bem! Não está incomodando, não. – respondi desconcertada por ter sido grosseira com a garota. Tinha algo de estranho nela, mas era muito simpática. – Vamos conversar, assim o tempo passará mais depressa.

– Cheguei há pouco tempo nessa cidade enorme e fico maravilhada com tudo. Gosto de ficar olhando pela janela os outdoors luminosos e as construções enormes e modernas. Geralmente não incomodo ninguém porque fico observando tudo, mas hoje, por causa da chuva, a janela embaça a todo momento.

– Deu pra notar que você não é daqui. Veio do interior, acertei?

– É! Só pelo sotaque as pessoas percebem! – riu ela. – E a senhora? É daqui?

– Não, não sou. Também vim do interior como você. Mas já faz algum tempo. Está gostando daqui?

– Muito. Esta cidade é enorme. Tão cheia de possibilidades… Claro que sei que aqui moram muitos perigos também. Mas eu vou me manter longe deles.

– E a senhora gosta daqui?

– Não precisa do “senhora”! – de repente, me vi querendo ser simpática. – Você deve ser uns cinco ou seis anos mais nova que eu!

– É o hábito!

Hábito! Chuva de hábitos. Ela me perguntou se eu gostava daqui! Não quero desiludi-la, dizendo que odeio! Mas talvez fosse melhor fazê-lo. Talvez se eu tivesse encontrado alguém que tivesse me alertado sobre todas as dificuldades… Não, não vou desiludi-la! Que descubra sozinha!

– A chuva aumentou ainda mais! Vou me molhar toda. Estou sem guarda-chuva. – dei o sinal para descer e já ia me despedindo da garota quando ela me interrompeu…

– Eu também desço aqui. Que coincidência! Pelo jeito moramos na mesma vizinhança!

– Boa sorte e felicidades pra você, menina!

– Pra você também! A senhora, digo, “você”, me lembra uma pessoa, mas não sei quem… Tome! Fique com meu com meu guarda chuva!

– Mas e você? Vai ficar ensopada!

– Faz bem tomar banho de chuva de vez em quando! – disse sorrindo e correndo na frente pela rua. – Hoje eu seria capaz de sair dançando e cantando como Gene Kelly, naquele musical. Está tudo dando certo pra mim! – gritou.

– Que bom! Se nos encontrarmos de novo te devolvo o…

Ela já tinha dobrado a esquina e sumido. Que louca! A alegria dela me contagiou. Senti vontade de deixar o comodismo de lado. Cheguei na porta do meu prédio e entrei dando um “boa noite animado ao porteiro”:

– Boa noite, Dona Letícia! Achei q a senhora já tivesse chegado.

“Esses porteiros!”, pensei. Abri a porta do meu apartamento e entrei trancando a porta. Fiquei surpresa ao ver que havia alguém lá dentro. Um estranho.

– AHHHHH! O que você faz aqui?

– O que VOCÊ faz aqui? Eu moro aqui! Mudei-me no começo da semana!

Chuva de medo! Uma invasora! Atirei nela um vaso que estava na minha frente. Fiquei paralisada quando o vaso atingiu-lhe a cabeça e ela caiu no chão. Meu coração disparou e gotas de chuva escorriam do meu rosto. Eu não acreditava em meus olhos. Era a garota do ônibus! Lentamente caminhei para ela. Então, horrorizada eu finalmente a reconheci. Era como se eu olhasse para um espelho vivo, mas sem movimento. Ela dizia a verdade. Como era bonita! Ajoelhei-me e passei a mão em sua testa limpando o sangue. Desejei que ela não estivesse morta. Tinha a certeza que Letícia abriria os olhos e então me reconheceria! CHUVA de alegria! Tinha certeza que amanhã faria sol.

***

*Laetitia:  substantivo em latim, cujo significado é “alegria” . Pronuncia-se “Letícia”.

Manu Quelis