sabedoria etílica (para aqueles que acreditam que “in pinga, veritas”)

30 06 2009

Outro dia saí de casa pra trabalhar, vinte pras oito da noite, e sentei no banco do ponto do ônibus, que fica em frente a um cruzamento onde uma das ruas é de mão única e, com considerável freqüência, vemos motoristas desavisados (sim, porque não há placas), entrar por ali na contra-mão. Neste dia, logo depois, sentou ao meu lado um senhor, decentemente vestido, mas alcoolicamente fedido. Ficou jogando palavras ao vento como os que padecem do vício fazem. Sim, ele era alcoólatra, tendo, inclusive, afirmado isso: “tenho duas filhas, uma médica e uma fisioterapeuta; e olha que sou alcoólatra”. No instante seguinte, mais um desavisado entra na contramão. Eu dou uma levantada no corpo e levo a mão a cabeça, num susto. Nisto, o senhor exclama: “é isso, é isso que dá! ficar pensando no ontem, dá nisso. sabe, menina, porque os acidentes acontecem? porque as pessoas ficam pensando no ontem. ora, o ontem já passou, não temos que pensar no ontem. temos que colocar a atenção no hoje, que é o que está acontecendo, e no futuro que acontecerá daqui a pouco. Quem pensa no ontem não vive, e acaba fazendo besteira.” Tive que agüentar mais umas ou outras divagações daquela figura, até que chegou o ônibus. Mas aquelas suas palavras fizeram total sentido para mim.

Maria





Apenas ela e eu

18 06 2009

Milhões de faces, milhões delas, projetando-se de milhões de cabeças que se erguem de milhões de tórax. O mesmo número de abdomens e quatro vezes mais membros, entre braços e pernas, em média. O conjunto de tudo isso forma milhões de seres humanos, que rastejam sobre milhares de ruas feitas de asfalto sujo, frio, úmido. Dessas ruas se levantam milhares de prédios de concreto cinza, que arranham as incontáveis nuvens em alturas inimagináveis, lá em cima, da mesma melancolia cinzenta. Melancolia. Essa massa de rostos, tórax, abdomens e membros vai de encontro a destinos cujo os quais ignoro, cujo os quais não quero conhecer. Não é do meu interesse se vão ou vêm, para lá ou para cá, o que me importa? Um cataclismo arrasou o mundo e o fez desmoronar por completo: o mundo deixou de existir. Isso é o que importa.

Restam, então, apenas ela e eu. Apenas nós dois, entre a multidão. Mas não a quero ao meu lado, não a quero comigo, não a desejo. Quero despistá-la, livrar-me dela. Tento alguma manobra, entro em algum beco, enveredo para algum pensamento… tudo em vão. Minha companheira obstinada, você jamais falha; cá está, me assombrando, cumprindo com toda a competência que lhe cabe o que se propõe a fazer, desde sempre e para sempre.

Um alemão não saberia nomeá-la, tão pouco um russo. Nem um chinês saberia. Nenhum dos milhares de povos africanos ou do oceano pacífico a batizou. Um tailandês ficaria calado, assim como um turco ou um canadense. Nem mesmo um inglês. O restante do mundo se calaria, mas a conhecem tão bem quanto eu, quanto você. A única diferença é que nós sabemos a sua identidade e a nomeamos muito bem. Dizem que sofremos ainda mais sua presença por saber nomeá-la. Azar nosso.

Sei seu nome, cá ela está. Não haveria nome mais perfeito. Sinto o gosto amargo na boca, o estômago se remoendo, a aflição da ausência. Enquanto caminho por um mundo destruído, entre milhões de faces apáticas e desinteressantes, ela me acompanha. Restam apenas ela e eu em meio ao vazio pós-cataclismo. Nostalgia. Flashs de lembranças, perda, luto, distância. Culpa. Ela jamais falha.

Insiste em me saudar e se fazer notar. Questão de saúde, há dor. Posso crer que é ela quem me desperta toda manhã, pois é a primeira a se mostrar para mim. Está também em meus sonhos, fazendo parte de cada um deles. Sensação de ausência. Tristeza. Daltonismo da alma, o cinza que me envolve. Vida monocromática. Quero despistá-la, sou um incompetente. Preciso despistá-la, falho em cada um das minhas tentativas.

Solitudine, solitudo, solus, só, solidão. Solitate, solitarius, solitário. Salute, saúde, salutare, saludar, saudar. Saudade, eis o seu nome. Minha companheira, aquela que se faz presente pela ausência, aquela que nós, e só nós, de herança lusa, sabemos sua identidade, e por isso a sofremos ainda mais.

Caminho entre milhões de faces, em meio a milhares de prédios, em qualquer uma das milhares de ruas desse lugar. Estou só, ela comigo. O cataclismo que destruiu o mundo trouxe o vazio que toma a minha alma, alma daltônica. É nesse vazio que ela fixa residência, e de lá manda seu recado ininterrupto. Dor que não cessa. Luto. Fim. Na aflição da ausência ela saúda a sua presença.

Perda do essencial, da inspiração, das cores, do sentido. Término. Culpa. Lágrimas. O mundo ruiu. Milhões de faces que não me dizem nada, absolutamente nada. Estou só. Distância. Eu a perdi, a saudade ocupou seu lugar.

Egon Zakuska





E a bula diz: use-a como quiser.

16 06 2009

O que pertence ao público e o que pertence ao privado, nesse novo milênio, está difícil de distinguir. Nem sempre essas esferas, pública e privada, contiveram os mesmos elementos ao longo da história, e períodos de transição como, ao meu ver, o que se vive hoje, são um tanto confusos. Com o advento da internet e a rapidez dos meios de comunicação, muitos conceitos terão que ser revistos. Pra vocês verem a importância da coisa, o tal vídeo da Cicarelli, por exemplo, foi objeto de algumas aulas nas disciplinas Direitos Fundamentais e Direitos da Personalidade no meu mestrado. Afinal, o que a Cicarelli sofreu foi ou não violação da sua intimidade?

Era discussão e opinião que não acabava mais. Com uma coisa todos concordaram: a intimidade é sua e você faz com ela o que bem entender. E assim nos expomos não só em praias, mas em sites de relacionamentos, álbuns digitais, blogs e comentários pela rede afora. Não reclame depois, cara pálida. Participar ou não dessas brincadeiras sombrias, nefastas, sinistras, é pura e simplesmente responsabilidade sua. E as opiniões que as pessoas têm sobre você no seu blog, derivadas das coisas que você escreve, de certa forma, também são.

A título de curiosidade (altamente nerd, mas vamos em frente), os druidas, e a sociedade celta, não faziam o uso da escrita. Para eles a escritura estava carregada de magia e apenas em casos excepcionais poderia ser utilizada. A forma escrita fixava na matéria, de forma definitiva, uma idéia ou um pensamento; matava o que deveria ser vivo ou o que deveria se reviver eternamente. Obviamente eu não sugiro que vivamos como os celtas (o que não é má idéia, principalmente se você é mulher; e se quiser saber mais sobre isso corra atrás e entenderá o que estou dizendo!) mas, o que interessa a presente reflexão é: o que você escreve, ou não, fica. Fica, principalmente, na opinião que os outros têm sobre você. Pra mim isso importa. Pra você, não sei. Mas se não importasse, talvez você escrevesse e condenasse seus textos ao buraco negro do seu computador. Se escreve e publica, não é por acaso. É porque quer se expor. É porque quer exercer este ácido desejo humano de se expor. Ou de expor um alguém que gostaria de ser, o que não é vergonhoso nem ilícito, mas pode gerar conseqüências se você não é um personagem literário.

O outro lado – o do leitor, mostra a realidade de que nem todo mundo, muito pelo contrário, vai encarar seu blog como mera literatura onde você é o personagem principal, onde expõe opiniões, gestos e atitudes que, no fundo, no fundo, não são os seus. Criar um personagem para expor o que se gostaria de ser é uma boa idéia. Mas construir um personagem sobre si mesmo, eu já não sei. Isso, cada um é que vai dizer. Assim, volta-se ao início do que foi dito aqui: a intimidade é sua, use-a como quiser.

Obs: as informações sobre os celtas foram retiradas do livro “Uma luz sobre Avallon”, pesquisa feita pela professora Maria Nazareth Alvim de Barros, editado pela Mercuryo.

Maria





Rótulos são para produtos e não para seres-humanos

12 06 2009

Eu rotulo
Ele rotula
Nós somos rótulos?

Seria hipocrisia da minha parte dizer que não cometo a burra prática da etiquetação humana . Por um lado, essa prática tem uma funcionalidade organizacional, já que ordena o mundo humano em prateleiras comportamentais.

Prateleiras? Sim. Como se tornou um dado, como dirá um filósofo de Pará de Minas , apodítico e apriorístico, a compra em supermercados, onde os produtos são simetricamente compartimentados e divididos, nos faz reproduzir tal lógica para as relações humanas. Tendemos logo a procurar no outro o prazo de validade, o código de barra e até as recomendações nutricionais.

Como se fossemos produtos uns dos outros, a nossa primeira ação é criar o tipo ideal do outro. Ouço muitas pessoas dizerem, preocupadas, que hoje em dia não dá mais para saber quem é hetero, bi ou gay. Isso como se a “classificação” sexual fosse o guia central para que as relações humanas se desenrolassem. Gera-se, assim, uma série de expectativas com relação ao comportamento do outro. Engolimos esteriótipos que não foram verificados, empiricamente, por nós mesmos, e a partir deles abrimos espaço para a ala da ignorância.

Podem até defender que isso é uma prática natural, já que visa o melhor conhecimento do mundo e, logo, colabora no processo de seleção natural e de evolução da espécie. Mas a linha que separa a defesa, contra as incertezas do mundo e a paranóia aristocrática da classificação hierárquica, é muito tênue e quase sempre nos derruba em armadilhas.

O sociólogo americano, Peter Berger, diz que o ser humano é burro por natureza, já que não pensa sobre as instituições nas quais está inserido. Tomamos como verdades absolutas questões corriqueiras. Associamos, assim, ações humanas com tipos ideais, colocando um rótulo quase que antes de realmente olhar o “produto”.

Não somos produtos e as embalagens quase nunca dizem bem o que carregam dentro. A ordem está invertida, deveríamos primeiro conhecer para classificar e não conhecer a partir de classificações “metafísicas”.

Usei a primeira pessoal do plural. Não estou imune. E deveria estar? “Quem são eles? Quem eles pensam que são?”

Êta sociedade judaico-cristã ocidental de consumo besta sô!

***

[1] Recomendo a leitura do poema de Drummond, “Eu etiqueta”. Recomendo também a análise sobre o mesmo poema feito por Priscila Faria de Moura. Para tanto, venha para o “lócus” Café Bossa Nova, em São João Del Rei, e aproveite os bons papos que habitam as mesas daqui.

[2] Gabriel Abílio. Filósofo nascido em Pará de Minas e que atualmente reside nos bares São Joanenses.

Guilherme Claudino





…já disseram um é pouco, dois é bom, três é demais…

2 06 2009

O Zé? Ah, a última dele foi que estava namorando duas mulheres. Coisa do Zé. Acho que todo homem sonha com essa coisa de ter mais de uma namorada, eu mesmo já tive vontade, confesso, mas daí a levar a empreitada a cabo, cara, é uma operação um tanto complexa. Ter duas namoradas não é a mesma coisa do que ter uma oficial e uma outra de vez em quando. Segundo o que o Zé contou, eram duas namoradas mesmo, as duas frequentando a casa, as rodas de amigos, a família. Só não frequentavam uma a outra, pelo que parece, mas aí também já seria um pouco demais… e eu acho até que demorou a dar confusão. Quando o Zé me contou, eu bem que avisei a ele, meu irmão, uma hora elas vão cobrar a conta, porque é claro que elas sabem, não se passa a perna em diabo. Mas ele estava gostando da brincadeira. E quem não gostaria? Há nesta vida algo mais motivador para um homem do que ser desejado e disputado por duas mulheres? Não mesmo. E o tempo foi passando com namorada A e namorada B cada vez mais integradas com família, amigos, mulheres dos amigos, ex-mulheres dos amigos… até que um dia…  informações atravessadas nos vai-e-véns de conversas femininas fizeram a namorada A querer pular fora do polígono. Houve choro e vela. Dizem as más línguas que até ameaça. A namorada A saiu batendo a porta da casa do Zé jurando nunca mais voltar. Primeiro o Zé sentiu um vazio. Depois, um certo alívio, afinal, ainda tinha uma para garantir. Três dias depois, ligou pra namorada B e a levou pra jantar. Ela estava radiante, já sabendo que a namorada A tinha ido embora repleta de razão, e viu sua oportunidade de se tornar a namorada U de única. Mas o Zé não viu nela a mesma graça. Ela percebeu. Ao deixá-la em casa disse a ela que não dava mais. Passou um mês pensando na namorada A, até que tomou coragem e ligou. Passaram um fim de semana inteiro na cama. Mas para o Zé, faltava algo.  Segunda-feira, quando ela foi embora, ele ligou para a namorada B. Tinham terminado numa boa, quase que com um “até logo”, e o Zé acreditou que não seria difícil retomar do ponto onde terminaram. Mas já era tarde… ela já estava com outro. Sentiu um aperto no peito. Não era bem dor, mas frustração. Certamente a namorada A poderia assumir o posto de namorada U, se ele quisesse. Ah… se fosse isso que ele realmente quisesse. Mas não era. Sua paixão não era por uma ou por outra, nem pelas duas. Era por si mesmo. Era a disputa entre as duas que o mantinha bem, feliz, realizado. É, o Zé continua o mesmo. Cheio de história pra contar. Mas um dia ele toma jeito, ah se toma!

Maria





Memórias de um longiquistanês

26 05 2009

Ligo a TV: pessoas protestam no Livrequistão. Bombas de efeito moral, tumulto, correria… Outra manifestação: dessa vez no Bombaquistão. Mortos! O âncora chama a atenção para a depredação e passa para a próxima manchete. Não menciona o que tirou de casa o jovem de blusa vermelha; não diz o que motivou o uso da pólvora; não fala sobre o movimento… Segue para o momento educativo: cinco minutos de benefícios do protetor solar… Não, alguém morreu no Bombaquistão! Não foi de câncer de pele!

Propaganda… Tento imaginar, no intervalo, o impacto de pessoas aglomeradas nas ruas – unidas em torno de uma causa. Mas qual? O que os ameaçam? Por que elas lutam? Por que resistem? O âncora volta – mas não retorna com mais notícias dos protestos. Lembro dos ativistas bombaquistaneses, com cartazes em livrequistanês! Eles falam para o mundo! Mas não adianta mudar de canal na minha TV! Meus conterrâneos estão ocupados com outra coisa! Perdi a notícia. O vizinho tenta, em vão, me convencer, dizendo que são todos baderneiros: “uma minoria, à toa, que gosta de atrapalhar o fluxo… Tem é que descer o cacete!”.

Ainda bem que criaram a internet.

André Paravizo





No sétimo dia

24 05 2009

Na sexta passada ela bateu na minha porta com sete malas, olhos inchados e olheiras profundas dizendo que nunca mais voltaria à casa dos pais.

- O que aconteceu? Descobriram?

- Aquele veado francês apareceu lá em casa dando escândalo! Contou pros meus pais…

Eu bem que tinha avisado. É muito arriscado morar com os pais quando se tem vida dupla.

- E o seu noivo?

- Acabou! Ele me despreza. Disse que tinha nojo de mim. Mas quer saber? Eu fiz a escolha certa.

- Claro que sim, você é como eu. Sabe curtir a vida e o dinheiro. E o que puta vende, por que tem de sobra, é prazer…

- Putas até morrer! – brindamos.

E caímos na risada e no vinho, após termos decidido dividir o “apê” e alguns clientes. No entanto, notei que a Lu não conseguia disfarçar a sua tristesse. Romper com a família e o namorado era uma barra pesada demais – até para pessoas como nós.

Quando entrei nessa vida, senti que morria e renascia como outra pessoa. Mas o meu caso era bem diferente do caso da Lu. Talvez ela possa estar experimentando a morte da antiga Luísa, só agora – agora, que as pessoas que ela amava, sabiam.

- Acho que não tem mais volta, não é?

A minha amiga não estava a fim de faculdade… Desmarcou clientes… Então, terça, antes de sair, eu a vi em frente à TV, tomando sorvete de creme. Parecia um pouco melhor. Bem, eu precisava ir pro night club.

- Lu, tô indo nessa! Te cuida, hein?

Não vi a minha amiga na quarta; na quinta… Estava começando a me preocupar. E se ela tivesse feito alguma besteira? Não. Ela não era desse tipo.

Sexta, de noite, a Luísa chegou estonteante, com um vestido novo vermelho. Fiquei aliviada ao ver que minha amiga estava bem. E, claro, mais aliviada ainda, por saber que ela tinha voltado ao trabalho. Isso garantiria o nosso aluguel.

- Tenho um cliente especial. Tava me preparando… Olha o que eu ganhei! – disse, apontando para o seu vestido Hercovitch.

- Vai acompanhar algum mega empresário?

- Não. Paga melhor!

- Quem?

- Meu ex noivo!

Manu Quelis





Juliana Paes, Fidel Castro e o futebol nacional

21 05 2009

Toda vida fui uma pessoa eclética e sempre tive amigos que pensavam de todas as possíveis e inimagináveis formas. Porém, nunca fui julgado por minhas atitudes, tampouco por meus modos. Mas, por certo, sempre me fizeram muitas perguntas a respeito. Como posso conhecer hippies e frequentar raves ou me envolver com grupos intelectuais, para escrever artigos, ou, simplesmente, discutir política internacional?

Ouvir desde antigas canções italianas e espanholas ao rock progressivo americano, não se trata de pura auto-estima ou demonstração de grande conhecimento. Mas, sim, de múltiplos interesses e prazer próprio. Claro: soa estranho a alguns, tal posição eclética…

Na semana passada, em um shopping center na cidade de BH, resolvi fazer algo que há muito não fazia: entrar em uma loja de CD´s (porque não?) e comprar alguns para ouvir em casa e relaxar –  embora hoje as coisas mudaram demasiadamente, não é mesmo? O que era CD virou MP3; a bala, antes encontrada, hoje é perdida; carnaval de rua se chama micareta; guaraná Taí virou Kuat e por aí vai, embora nenhum deles realmente deixou de existir…

Rodeado de inúmeras opções, diversos artistas, músicas variadas e estilos discrepantes, resolvi comprar o que gosto, e não fugindo ao meu modo, escolhi um belo CD de canções espanholas de Julio Iglesias e um ótimo Ozzy Osbourne – em um show ao vivo. Com ambos os discos, me dirigi ao atendente da loja. O mesmo, bem ao estilo “bom entendedor musical” (camisa de rock, tênis all star, costeletas…), me olhou normalmente, pegou os dois CDs, verificou com atenção quais eram os artistas, e, sem titubear, me perguntou:

- Este é para presente não é? – rindo e me mostrando, com maestria, o CD do famoso cantor espanhol. Olhei para seus olhos e respondi:

- Não precisa embrulhar – “ó senhor da música e que tudo sabe”. Ambos são mesmo para mim.

Surpreso, mas sem demonstrar muito – aliás, vende-se até “Calipso” por ali – somou o valor da compra, colocou ambos os discos na sacola, recebeu o pagamento e agradeceu minha visita.

Então, saí do shopping center, comprei um milk-shake e no caminho, enquanto voltava para o hotel, me perguntaram onde ficava o Palácio das Artes (devo parecer um típico belo horizontino). Virei e respondi ao jovem, em bom e claro spanish: ¡No lo sé, no soy de aquí! ¿Vale?”

No apartamento, liguei o som e comecei a ouvir Paranoid (live with Randy Rhoads), mas sem antes de ter apreciado a bela canção Begin the beguine, ou como diria Iglesias: Volver a empezar por el amor de una mujer

Agora, ao fim de tudo, você deve estar se perguntando onde está a gostosa Juliana Paes; o ditador de pijamas Fidel Castro ou os críticos comentários ao futebol brasileiro. Em lugar nenhum, ou por acaso você leria este texto se o título fosse: “Músicas, amizades e minhas preferências pessoais”?

Felipe Ferreira





Empreendedores, dores, dores, dores, dores…

20 05 2009

Vivemos em uma sociedade tecnicista e neoliberal. Isso corresponde a dizer que cremos que as leis do mercado podem regulamentar boa parte das nossas ações, bem como resolver quase todos nossos problemas institucionais e sociais. Isto significa, também, afirmar que a evolução da ciência e do desenvolvimento de novas tecnologias, como por exemplo, a engenharia genética e a nano robótica, serão capazes, juntamente com as políticas de privatização e minimização do Estado, frente às grandes corporações, de resolver desde o aquecimento global até a inquietante dúvida existencial hamletiana: ter um filho de olhos verdes ou azuis?

Sei que a palavra neoliberal é amplamente utilizada e é associada a discursos de “baderneiros revolucionários”. No entanto, não encontro outra palavra para classificar nossa cultura empresarial – e também não tenho culpa se o marxismo vulgar, que vive de resquícios de utopia, a utilizou para caracterizar desde o capital financeiro especulativo até as mais diversas relações amorosas ou as rosquinhas que a dona Zélia comercializa em sua venda. Nesse sentido, nossas relações são todas empurradas para o buraco negro da economia. Altusser matou sua mulher e se suicidou, mas por vezes ainda se ressuscita a idéia de um mundo regido por emaranhados de dominações, aparelhos ideológicos do Estado e determinações.

Nos tempos do 1000 km/h, sem curva ou quebra mola, um “grande” homem é aquele que domina os trejeitos empresariais, aquele que conhece a lógica empreendedora, um ser criativo, capacitado para as novas transformações do mercado. Ou aquele que domina amplamente as novas tecnologias ou suas correspondentes pesquisas, como por exemplo, um renomado engenheiro ou um grande geneticista. O estudante das humanidades não serve para quase nada – digo quase nada, por ele poder servir ao requintado mercado cultural, que por vezes torna manifestações populares em sagradas discussões cult. Para que devemos pensar como o Estado moderno se formou, ou entender transformações sócio-culturais da língua portuguesa, se teoricamente isso não se transforma rapidamente em investimento empresarial, não constrói pontes ou não salva vidas?

O homem do século XXI não precisa dominar nenhuma outra língua, apenas as técnicas teatrais que nossos grandes filósofos Roberto Justus e Max Gehringer propagam. Provavelmente, tanto no Cazaquistão como na Alemanha as artimanhas serão as mesmas. A história acabou, chegamos ao ápice: as únicas transformações serão de cunho científico. Embalado pelo canto de Fukuyama, o macaco-robô do século XXI não crê em mudanças drásticas, pois é natural do Homo Sapiens Sapiens ser Consumus Consumus. É natural que tudo seja como é nesse instante. Nos vemos, assim, entregues a vestir ternos, fazer cursos de redação empresarial, de gerenciamento, de liderança e ver neles a solução para o desemprego no Brasil, bem como para o fim da AIDS no Sudão. Temos que aceitar, nas palavras de Marshal Sahllins a “ignorância auto-imposta do pós-modernismo e a presumida onisciência do neoliberalismo: o primeiro, atacado por um sentimento paralisante de indeterminação, o segundo por um sentido exagerado de certeza.”

Não creio que podemos chegar a uma sociedade igualitária, sem hierarquias sociais (não que eu as defenda), onde o Estado se desmancharia naturalmente. Por isso não defendo um projeto clássico de socialismo – não creio que uma revolução política geraria significantes benefícios permanentes. A experiência histórica demonstrou a fragilidade dos modelos políticos que defenderam a revolução armada e a supressão das liberdades em “prol” do coletivo.

Frente a isso, o que fazer de concreto? Pensar 10, 20, 30 vezes antes de comprar. Se a mesma racionalidade aplicada na produção fosse aplicada no consumo, provavelmente produzir-se-ia uma enorme contradição no sistema capitalista. Seria hipócrita de minha parte me colocar a parte disso tudo, até porque a Ricardo Eletro está com uma promoção esse fim de semana!

Não “salvaremos” o Brasil, muito menos o mundo, nos impregnando da lógica empreendedora, o que não significa dizer que defendo a destruição das fábricas e a construção de comunidade hippies vivendo do trabalho manual e do curandeirismo. O que nos falta é olhar para o lado e sentir que existe vida fora do nosso bolso, que para além da bolsa há valores que deveriam ser bem menos instáveis.

Guilherme Claudino





Groupie

19 05 2009

Foi lá pelos idos de 93, 94, que ganhamos as madrugadas sem lei. A noite de Itaipava era de uma precariedade charmosa ao extremo, e combinava bem com o visual grunge que a galera adotava na época, assim como com a pouca verba adolescente. Era destino certo das noites de sábado na época em que aqui fazia muito mais frio do que faz. O principal ponto da galera era bar/restaurante de crepes (que existe até hoje – completamente reconfigurado e, como diz uma das donas, evoluído) que na parte de trás tinha um palco improvisado onde os melhores músicos da cidade se fizeram conhecidos e amados por todos. Era o palco, o frio e a fogueira, onde vários tocadores assíduos de viola também se fizeram amados e conhecidos, que levavam a noite até as 5 da manhã. E tome camel (cachaça com mel, vendida, na época, à equivalência de R$ 1,00) para esquentar as gargantas.

E assim foi que o blues impregnou a existência dos que viveram aquelas noites, junto com outros sons, The Doors, Janis Joplin, Led Zeppelin, Pink Floyd e, é claro, afinal, era a época deles, Nirvana e Pearl Jam. Depois todo mundo ia junto para o ponto de ônibus mais próximo esperar pelo corujão, que naquela época não tinha perigo (e eu continuo achando que até hoje não tem tanto assim… mas os adolescentes foram banidos das madrugadas por algum juiz da infância mal humorado).

Uma das bandas desta época tornou-se a nossa favorita, não sei exatamente se pelo som que faziam ou se pela quantidade de shows, e por mais de um ano teve uma galera que conseguiu ir a todos os shows dos caras – e eu fazia parte desse grupo! Sabíamos o repertório de cor, valendo interpretar as backing vocals em Mustang Sally – ride, Sally, ride – e tendo certeza que nenhum show terminava sem tocar Wish You Were Here. Falo sem saudosismo porque vivi cada minuto daquelas madrugadas. Para você que não viu The Commitments:

E ontem, caçando o que fazer na boa e velha Itaipava, show da banda no bar/restaurante evoluído! Boa supresa – faz um tempinho, esses músicos resolveram se reunir para alguns shows. Foi bom para recordar, embora eu sempre tenha uma certa nostalgia da precariedade da fogueira. Lugar cheio, som impecável. Só não fiquei para ver se tocou Wish You Were Here. Não sou mais uma adolescente, agora o restaurante tem comanda e a fila para pagar, quando o show termina, estraga o glamour de qualquer noite!

Maria