É engraçado como nestes tempos de indiferença, qualquer gesto de atenção é considerado companheirismo, amizade e, para alguns, até amor…
André Paravizo
É engraçado como nestes tempos de indiferença, qualquer gesto de atenção é considerado companheirismo, amizade e, para alguns, até amor…
André Paravizo
Se não existem as dualidades mente/corpo, sujeito/evento, emoção/razão, indivíduo/sociedade, quem somos nós?
E mais, se a terra não é o centro do universo e somos mais uma espécie sem distinção valorativa das outras existentes, quem somos nós?
São tantos grupos. Tantos gostos. Tantas possibilidades. E a gente não sabe se é reta, ponto final, ponto de convergência, ângulo reto ou obtuso.
Aonde começo e até onde eu sou eu? Sou meramente a limitação corpórea que é ao mesmo tempo morada e ponte de conexão com o resto do que existe?
Talvez eu não seja enquanto pele, mas enquanto peles, ventos, visões, enfim, interações. As vezes acho que a individualidade é um mito. Tudo bem, temos uma marca de diferenciação com relação a qualquer ser vivo do universo. Mas daí pular para o “umbigonismo” existencial?
Guilherme Claudino
onde você esconde o seu Eu
que não morreu
mas agoniza
em algum canto
dessa pose
sem encanto
num sorriso
à meia boca
sem alma
num olhar
sem gosto
sem calma
num rosto
sem cor
sem brilho
num coração
sem amor
tão frio?
André Paravizo
Recentemente fiz trabalho de campo com meu parceiro de pesquisa do Departamento de Pesquisa em Comportamento da Universidade do Campo das Vertentes, Gabriel Abílio.
Temos desenvolvidos vários trabalhos em conjunto, tendo como áreas de interesse as noites Sanjoanenses e as relações de afetividade tecidas durante as mesmas.
Através de uma metódica observação encontramos um fenômeno interessante durante as “festas”: A perigosa e poderosa força feminina de controle e dominação do ambiente, que tem como contraste a incapacidade masculina de visão de totalidade da balada.
As mulheres têm olhar multifocal, tendendo a perceber os vários comportamentos a sua volta, o que dá a elas uma alta margem de controle das situações, o que é catalisado tendo em vista que os homens “binocolizam” sua visão.
E sob essa questão estrutural que encontramos um fato muito recorrente, que intitulamos de “varada na água”. Típico comportamento de homens que muito afoitos não percebem o que está acontecendo a sua volta e ao serem rejeitados, em frações de segundo, saem cortejando outras mulheres num raio muito curto. Tal ação gera uma sucessão de nãos e as ondas causadas pela varada na água vão se propagando e levam o sujeito bêbado e sozinho para casa.
O que mais nos chamou atenção foi o esfrega-esfrega feminino que pode ter variadas dimensões. Identificamos um grupo de mulheres que dançavam e se esfregavam se insinuando para um grupo de homens, que cegos foram interagir com as mesmas. Eu e meu companheiro de pesquisa notamos um fato peculiar, a mesa dos rapazes estava cheia de bebidas. Não deu em outra, elas estavam apenas instrumentalizando a sedução. Sem que os homens percebessem, pegaram uma lata de cerveja e deram tchau e benção. Os rejeitados ficaram sem entender o que havia ocorrido e se queixaram da provocação seguida de fuga.
Observamos outro evento com o esfrega-esfrega. Duas mulheres estavam dançando juntas no típico “boom boom pow”. Rapidamente um número significativo de caçadores afoitos se posicionou e iniciou o fuzilamento. Nenhum obteve sucesso. É incrível como os homens não param para pensar que o dançar de duas mulheres não significa necessariamente um convite ao acasalamento. E se elas forem lésbicas? Aparentemente não era esse o caso, elas estavam simplesmente se divertindo, nada mais. Está aí uma outra característica feminina, o desapego com os seus corpos com relação umas as outras. As mulheres no geral são muito bem resolvidas quanto ao darem carinho umas as outras e se tocarem sem neuras e sem erotização. Acredito que esse fator está ligado a condição materna de cuidado e proteção.
Dentro desse projeto mais amplo, desenvolvemos um subprojeto intitulado “existe forró descompromissado?” que pretende investigar se é possível um homem chamar uma mulher para dançar sem nenhuma pretensão. Ainda não chegamos a conclusões efetivas, mas os resultados demonstram que na grande maioria os convites para dançar carregam um simbolismo constituído de elementos que erigem a conquista. O interessante é que o aceitar dançar por parte das mulheres pode significar nada mais nada menos que “sim eu aceito me divertir com você, mas apenas dançando”. Fenômeno esse que mais uma vez comprova a superioridade feminina, sua autonomia e sua visão mais ampla.
Nosso próximo projeto se chamará “micareta, germes, competição e o vazio”. Aguardem os resultados dessa pesquisa.
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Guilherme Pereira Claudino – Formado em Antropologia surrealista e História . Seu doutorado, já publicado pela Cia das letras, intitula-se “A mentalidade dos sacanas”, onde o autor analisa as conversas e a toda lógica social das festas.
Gabriel Abílio – Formado em Lingüística Quântica e História. Seu doutorado foi premiado pela Associação das Disquitadas da década de 50. A tese, em um enfoque micro-análitico, analisa brigas de um casal durante as baladas.